September 05, 2016

Sobre escritoras suicidas

A morte. Esse lugar habitado, mas nunca realmente descoberto. É o fim? Ou um novo começo? Para Virginia Woolf, Alejandra Pizarnick, Ana Cristina Cesar, Anne Sexton e Sylvia Plath, foi uma forma de Arte.

Antes de adentrar o universo de cada escritora citada, é preciso lembrar que suas obras não devem ser lidas como um caminho ao suicídio. São todas o resultado de um momento único, afinal, o suicídio não é algo esperado, mas quase sempre parte de uma espontaneidade mental. Além disso, muitas obras aqui citadas, serão parecidas com poetas não-suicidas, pois eles também ousavam denunciar o real pela escrita, gritando as confissões da alma. Sinal de que escrever muitas vezes funciona como um remédio. 

A literatura faz uma ligação com a psicanalise: manifesta-se o inconsciente na escrita. Marguerite Duras (1914 – 1996), escritora considerada uma das principais vozes femininas da literatura do Século XX na Europa, diz sobre o ato de escrever “É uma contradição absurda, pois escrever é também não falar. É se calar.”. E assim, diferentes mulheres, em diferentes contextos sociais, tentavam calar as vozes mentais em seus escritos. As opções destinadas à uma sociedade que coloca à margem mulheres neuroatípicas, é escrever ou morrer.


Virginia Woolf nasceu em 25 de janeiro de 1882. Um dos únicos livros disponíveis em português sobra sua vida, “Virginia Woolf — Uma Biografia”, foi escrito por seu sobrinho, Quentin Bell. Os familiares de Virginia, por parte de pai, eram todos escritores. Aos 6 anos, ela já inventava histórias. Ainda na infância, foi abusada pelo meio irmão, George Duckworth. Fato que marcou sua vida amorosa/sexual para sempre.  Em meio a uma família de classe média, pode se dedicar por anos à leitura e à escrita. Aos 16, apaixonou-se por uma mulher, Madge Symonds. Não era nada sexual, apenas paixão e afeto.

Virginia não foi para a universidade. Em 1904, após o falecimento de seu pai, acontece a primeira tentativa de suicídio. Pulou de uma janela, mas era muito baixa.  Apaixonada mais uma vez, por outra mulher, Violet Dickinson, Virginia não se entrega aos desejos físicos, amou muito na troca mental. Influenciada por Violet, começou a escrever críticas para o “The Guardian”.

Após criar um grupo de encontro com outros amigos intelectuais, Virginia se inseriu mais no meio social. Seus familiares começaram a pressiona-la sobre casamento. Escreveu à uma amiga Violet: “Eu queria que todo mundo não me ficasse repetindo que devo casar. Será uma irrupção da rude natureza humana? Eu acho repulsivo”.

Entre 1907 e 1908, Virginia escreveu “The Voyage Out”, no Brasil sob o título de “A Viagem”. Insegura e não contente com o livro, Virginia queimou mais de 7 cópias e não publicou ficção até os 33 anos. Sua timidez refletiu no seu percurso literário. Virginia tinha medo de se expor.

Em 1912, Leonard Woolf e Virginia se casam. Leonard era perdidamente apaixonado por ela. O casamento foi um grande “negócio”, pois assim, Virginia poderia se camuflar na normalidade da época. A união com Leonard também aumentou o seu equilíbrio emocional e a sua segurança como escritora. Virginia era assexual, é importante citar isso, pois muitas vezes são pessoas incompreendidas. Leonard não se importava com as questões sexuais de Virginia, ele a admira profundamente. 

Após concluir e entregar “The Voyage Out” à editora, em 1913, Virginia tenta se suicidar.  Toma 6,5 gramas de veronal. Como uma pessoa extremamente sensível a críticas, essa talvez fosse uma forma de escapar dos comentários alheios.  Em seus diários, ela sempre relatava os sintomas de depressão do transtorno bipolar, tipo a agitação motora e as alterações no sono.

Depois do lançamento de alguns livros, Vírginia escreveu: “Imagine acordar e descobrir que se é uma fraude. Esse horror era parte da minha loucura”. Ela também trabalhou com editora de livros, editando obras como de Freud. Sobrevivente à Segunda Guerra Mundial e após escrever livros marcantes na literatura, não somente feminina, como universal, Vírginia foi tomada por seus medos.  Na manhã de sexta-feira, 28 de março de 1941, um dia claro, luminoso e frio, Virginia foi ao seu estúdio no jardim. Lá, escreveu duas cartas, uma para Leonard e outra para Vanessa Bell, sua irmã. Em uma das cartas, ela diz "a única experiência, que nunca descreverei”. Caminhou em direção ao rio, e lá, encheu os bolsos de pedra, até se afogar. Seu corpo ficou desaparecido por dias. Na carta que deixou para Leonard, Vírginia dizia que não queria mais incomoda-lo. Ela se sentia um fardo.

A poesia é como as plantas resistentes ao concreto: basta olhar pela cidade, elas estão lá, deixando verde o que era para ser apenas branco e cinza. Foi assim, com um sopro de resistência e esperança, que Anne Sexton, começou a escrever. Ela nasceu em 1928, em Massachusetts, com uma vida marcada por conturbações familiares. Seu pai era alcoólatra, o que a despertou imensas crises de depressão.
Casou-se com Alfred Sexton, que já era noivo quando a conheceu. Os dois fugiram juntos. Alfred entrou para o serviço militar na Coreia e depois trabalhou como caixeiro viajante. As ausências do marido e o nascimento das filhas, fez com que Anne tivesse depressão pós-parto.

Após inúmeras tentativas de suicídio, foi aconselhada por um psicólogo a escrever. Sem formação academia nenhuma, aprendeu a escrever sonetos após assistir um programa de televisão. Anne começou a se envolver profundamente com a escrita, em meados da década de 1950, frequentando rodas, debates e encontros. Em uma palestra sobre poesia confessional, na qual se inseria perfeitamente, conheceu Sylvia Plath. Viraram amigas e saiam sempre juntas para beber.

To Bedlam and Part Way Back publicado em 1960, foi o livro que início à sua carreira literária. Depois, lançou mais 6 livros, entre eles, Live or Die,  ganhador do Prêmio Pulitzer, em 1967.

Com uma poesia extremamente confessional, Anne escrevia sobre sua relação intima com a depressão, com a bebida, o suicídio e alguns assuntos raramente citados em poesia naquela época, como sexo, aborto, menstruação, masturbação e adultério.

Em 1963, sua amiga Plath comete suicídio. Anne escreveu um poema sobre o suicídio logo após falar para o terapeuta "ela roubou a minha morte, eu queria ter se matado no lugar dela". Em um artigo sobre a morte de Sylvia Plath, Anne Sexton escreveu "O suicídio, é afinal, o oposto do poema."

Alguns anos depois, em 4 de outubro de 1974, aos 45 anos, Anne cometeu suicídio. Trancou-se na garagem com o motor do carro ligado, morrendo por intoxicação de monóxido de carbono.


Sylvia Plath nasceu em 27 de outubro de 1932, em Massachusetts. Publicou seu primeiro poema aos oito anos de idade. Na época de estudante, escreveu mais de quatrocentos poemas. Apesar de ser mais conhecida por suas poesias, Sylvia também escreveu um romance, intitulado "A Redoma de Vidro", publicado em 1963. Foi casada com o poeta Ted Hughes, com quem teve dois filhos e após ser traída, separou-se.

A depressão é a marca da sua escrita. Uma poesia confessional, dura, real e suicida. Chegou a escrever também sobre aborto, pois já havia passado por um. Sylvia escreveu sobre a forma terapêutica da escrita, deixou registrado a certeza de que a escrita funcionava para ela como alimento, tão essencial que fazia sentir-se plenamente realizada.

Sylvia dizia que o texto literário é a “cidade onde os homens são remendados” e nele a poeta '”renascerá tão boa quanto nova''. Foi dessa forma que resistiu às inúmeras tentativas de suicídio. Antes mesmo de casar e de formar na faculdade, ela encheu-se de remédios. Esteve internada por breve período em uma instituição psiquiátrica, onde recebeu terapia de eletrochoques.

Ela escrevia em diários desde 11 de idade. Ao longo de sua vida e de seus escritos, um sentimento permanecia: “não consigo sair de mim mesma''. Sylvia era inteira e presente em suas poesias. Transparecia-se em palavras e letras. Em um texto escrito quatro dias antes de morrer, disse que ''o jato de sangue é poesia'' e ''não há nada que o detenha''. No seu poema, intitulado “Lady Lazarus”, Sylvia diz: “Morrer, é uma arte como todo o resto. Eu o faço excepcionalmente bem.

Na manhã de 11 de fevereiro de 1963, aos 30 anos de idade, Plath vedou completamente o quarto das crianças com toalhas molhadas e roupas, deixando leite e pão perto de suas camas, tendo ainda o cuidado de abrir as janelas do quarto, mesmo em meio a uma forte nevasca. Tomou uma grande quantidade de remédios, deitando-se logo após a cabeça sobre uma toalha no interior do forno, com o gás ligado, morrendo em pouco tempo. No dia seguinte foi encontrada pela enfermeira que havia contratado, Myra Norri.



Ana Cristina Cesar, escritora brasileira, nascida em 1952, no Rio de Janeiro, traduziu poemas de Sylvia Plath. Como tradutora, foi além, trouxe textos também de Virginia Woolf e Anne Sexton.

Ana foi um ícone da poesia marginal. Famosa por integrar a “geração mimeografo”, digitava e entregava cópias de seus escritos na esquina da universidade. Teve uma vida agitada, em meio a classe média, entre viagens e amigos. Teve muitos namorados, sendo adepta ao “amor livre”. Após voltar de uma viagem internacional, muito deprimida, jogou-se do apartamento dos pais, em 1983. Não era a primeira vez que havia tentado suicídio. No poema "contagem regressiva", escrito poucos meses antes de sua morte, dizia "os poemas são para nós uma ferida".  Ana só publicou um livro, intitulado “A Teus Pés”, onde mistura seus poemas com cartas, muitas vezes confessionais.

E é assim, entre uma relação de dor e cura, que as escritoras se dedicaram à escrita. É como se elas tivessem uma linguagem muito própria, com uma sensibilidade completamente apurada. O equilíbrio desajeitado, onde alguma coisa não dita, o telefone fora do gancho, e o amor, seja lá o que for, se torna uma infecção.

Alejandra Pizarnik (1936 -1972), poeta argentina, publicou seus primeiros poemas aos 20 anos de idade e licenciou-se em Filosofia e Letras pela Universidade de Buenos Aires. Passou um tempo estudando em Paris, onde tornou-se amiga de Julio Cortazar, com quem trocou muitas cartas depois. De volta a Buenos Aires, passou o resto de sua vida escrevendo. Sua poesia foi muito popular entre os jovens dos anos 80 e 90, sendo caracterizada com um “fundo intimista e severa sensualidade”

Seu primeiro livro, chama-se “la tierra más ajena” (A terra mais longe), datado de 1955. A morte está presente em quase toda a sua poesia, de maneira direta ou indireta. É como uma tela onde Alejandra pinta seus mais diversos sentimentos. Em grande parte de seus escritos, prevalece o TU, dedicando a sua poesia a esse outro ser ausente, ansioso pelo toque. “Recibe este amor que te pido. Recibe lo que hay en mí que eres tú.

Após lançar mais de 6 livros, internou-se numa clínica psiquiátrica para tratamento e, no dia 25 de Setembro, aos 33 anos, saiu para passar no fim de semana. Suicidou-se, ingerindo uma overdose de Seconal. Deixou por escrito: "Eu simplesmente não aceito as condições da vida."

Émile Durkheim, sociólogo, diz que o suicídio não é um ato individual, mas um fato social. Quanto mais individualizada, voltada para o próprio prazer e para o tempo do capital é uma sociedade, mais é possível perceber que o suicídio é consequência das relações constituídas. Já Michael Foucault narra, em A História da Loucura, como aqueles que eram “anormais”, que não se “enquadravam”, eram retirados da sociedade e amontoados em sanatórios. Fugir da normalidade é ser visto como louco. E a normalidade, até hoje, é se enquadrar nos padrões capitalistas: produzir. Produzir e produzir, sem pensar. Na antiguidade, os loucos incomodavam a Igreja com seu “comportamento inadequado”. Eram acusados de bruxaria e possessão demoníaca. Era como se desafiassem Deus. E hoje, desafiam outro Deus: o dinheiro. 

Tratando aqui, de mulheres e de suas vivências, apesar de serem todas privilegiadas, de classe média, mesmo assim não estavam longe de uma imposição patriarcal. As mulheres deveriam ser submissas e capazes de sempre ceder. Pautada na “capacidade de abrir mão de tudo”, a mulher deveria doar-se ao lar, ao marido, aos filhos. Esta era a normalidade de suas épocas.

Não é preciso muito, basta dar uma olhada na história das mulheres para perceber como era difícil se inserir em mundos além do comum – o lar. A escrita, foi um meio completamente masculino durante séculos. Os homens escreveram toda a história. O conhecimento de leitura e escrita, negado durante anos às mulheres. 

Muitas mulheres se renderam a literatura apenas usando pseudônimos, como no caso de George Sand. Vírginia Woolf não teve medo e ia de frente a essas questões sexistas, em seu livro “um teto todo seu”, ela questiona: se Shakespeare tivesse uma irmã que gostasse de arte, ela teria as mesmas oportunidades em que ele? Ou seria obrigada a abandonar tudo e arrumar casamento e filhos? No mesmo livro, ela diz: “Quem poderá calcular o calor e a violência de um coração de poeta quando preso no corpo de uma mulher?”.
A normalidade, está intimamente ligada a capacidade de adaptação ao sistema capitalista e patriarcal, com suas imposições brutais e violentas. Representados pelos seus aparelhos ideológicos: família, escola, igreja, Estado. Qualquer desvio da norma, é repudiado.

Portanto, é possível perceber através da vida dessas mulheres, que muitas romperam – ou tentaram – com a normalidade imposta. Vírginia, apesar de se casar, era assexual. Anne e Sylvia, separam-se, mas tiveram que lidar com o peso e a imposição de ser mãe. Ana Cristina e Alejandra, sob o pano das vivencias controversas do “amor-livre”. A solidão repudiada e a socialização forçada, fizeram com que a escrita ultrapassasse o ponto de cura. Escrever, não era mais o suficiente. Como se até mesmo a morte não fosse mais suficiente. O tempo que corre acelerado ao suicídio, deixa fragmentos: poemas, diários e cartas.

A morte, como um poema de muita expressão e de muito silêncio, como uma arte transcendental.
 
Beijos,
Bia Varanis.
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