July 02, 2016

Oficina Colaborativa do Estranho Mundo - 4º Desafio / 2016

Oi, folks,
Como passaram a semana?
 
Antes do nosso papo habitual de domingo, tenho dois avisos.
 
(1)
Evento chegando, yey! \o/
 
Estarei dia 13/07, uma quarta-feira, 16h, no Sesc Campinas, falando de universos fantásticos. O evento é gratuito e tem a presença do Felipe Castilho e do Luiz Roberto Guedes. Se estiver pela cidade, apareça lá para trocar uma ideia, combinado?
 
O site do evento é esse aqui:
http://www.sescsp.org.br/programacao/98754_UNIVERSOS+FANTASTICOS+BRASILEIROS
Não conheço o auditório, então não sei quantas vagas disponíveis.
 

 
(2)
Talvez, mais pro fim do ano ou no começo do ano que vem, eu volte com uma versão ampliada da nossa Oficina no Padrim. O Padrim (https://www.padrim.com.br/) permite criar uma “serviço de assinatura”, digamos assim. As pessoas pagam um valor por mês e recebem material em troca. É uma maneira de apoiar o artista, no caso o autor que vos fala, e receber conteúdo por um preço simbólico que não pesa pra ninguém. O somatório desses valores simbólicos, no fim, daria uma grana legal (ou assim eu espero) que me permitiria passar mais tempo preparando e relendo material da oficina. Ou quem sabe eu poderia abrir um “bastidores do livro novo” e enquanto escrevo vou mostrando pra vocês como aplico as teorias comentadas aqui no caos que é meu processo criativo. Algo nos moldes da NK Jemisin, talvez. Não sei. Tô só pensando alto e dividindo com vocês.
 
Se alguém aí tiver interesse ou algum comentário a respeito me avisa, certinho? Queria muito não ter conta pra pagar, mas... vocês sabem.
 
 
(3)
Vi que algumas pessoas se inscreveram na lista essa semana! Sejam bem-vindas, pessoas atrasildas. O arquivo com o material enviado até agora se encontra aqui:
 http://tinyletter.com/ericnovello/archive
Entramos no mês final. O que significa mais 3 domingos, e depois os e-mails de bibliografia, índice e encerramento.
 
Criei essa conta na TinyLetter para enviar os e-mails da nossa Oficina Colaborativa. Para divulgar meu trabalho, tenho uma conta no MadMimi, uma newsletter que se chama Estranho Mundo de Eric (surprise, surprise). Mas descobri recentemente que o MadMimi, apesar de ter mais ferramentas de personalização, não tem arquivo, e o limite de assinantes é mais baixo.
 
E, caramba, como arquivo tem sido útil, não é?
 
Por isso, resolvi consolidar as duas listas em uma só DEPOIS DO TÉRMINO DA OFICINA. Serão dois e-mails por mês. Newsletter de 15 em 15 dias, para ser mais exato. Nelas vou avisar datas de eventos comigo, lançamentos quando for o caso, dia para autógrafo, e... aqui vem o ponto importante... comentar conteúdo.
 
Equilibrar a egotrip e dar dica de livros, de música, dar dicas de escrita como venho fazendo aqui, trabalhar um pouco em cima de estudo de filmes, passar links interessantes, coisas assim.
 
Quem não se interessar pelo novo conteúdo e quiser sair, eu entendo. Mas gostaria muito que vocês ficassem e me dessem esses 10 minutos de atenção de quinze em quinze dias. Inclusive, se acharem que algum amigo curtiria meu trabalho, as dicas e esse tipo de conteúdo, passe o endereço para ele ir se inscrevendo, por favor https://tinyletter.com/ericnovello/ Agradeço muito pela força.
 
As redes sociais mataram os blogs, infelizmente. O Facebook controla conteúdo, o Twitter é frenesi em tempo real... Então a newsletter é um meio mais seguro de trocar uma ideia com leitores e amigos. Ela chega ao seu e-mail na mordomia, você deixa ela lá quietinha e lê quando puder, no computador ou no seu celular. Eu geralmente leio na cama, antes de dormir. Quanto mais assinantes, maior a rede de comunicação e mais tranquilidade na divulgação de eventos. Eu assino várias newsletters e tô curtindo bastante.
 
Mas, repetindo, a fusão só acontecerá no final da nossa Oficina Colaborativa. Lá pro meio de agosto. Se possível, fiquem por aí <3
 

Bem, vamos ao que interessa!




Mudando de assunto, hoje é dia de desafio! E quero falar do desafio da baleia primeiro. Teve muito mimimi, muita gente reclamando que o desafio foi difícil (e foi), mas os textos estão muito bons. Faltam só 3 exercícios para devolver (Jeyze, Anderson e Elvis), então acho que dá pra dizer isso sim. Parabéns a todo mundo que mandou. Alguns tiveram uma evolução incrível do primeiro texto pro segundo. Outros resolveram se arriscar mais.  Thumbs up! Fiquei feliz com o resultado.
 
(Outros passaram a rasteira no primeiro parágrafo, mas vamos fingir que isso não aconteceu).
 
Acho que o objetivo da lista, de estimular a escrita de um jeito criativo, mais do que se cumpriu. Se quiserem me passar um feedback a respeito, mandem ver.
 

O tema de hoje, como prometido, é criação de personagens.
Esses danados às vezes funcionam, às vezes não. Quando o personagem parece só uma peça que o autor move de um lado pra outro pra atender à trama, o leitor percebe de cara e isso quebra a magia. Se o problema acontecer com o protagonista então, já era. Se a gente não tem nenhuma conexão com o protagonista, pra que ler a história?


 
Existem alguns truques pra manipular essa questão da empatia. O Almodóvar deita e rola nesse aspecto. Mas eu queria me concentrar aqui no passo anterior, o ponto de partida, a criação do personagem em si.
 
E pra isso vamos recorrer a Apolo e Dionísio ou, mais especificamente, à maneira como Nietzsche usa os dois no livro “O Nascimento da Tragédia”. Que é meu pulo do gato, folks. Sabe aquela história de não conte o pulo do gato? Tá contado o meu.
 
Estudei o livro na Escola de Cinema. Era uma cadeira onde estudávamos teatro e como as estruturas narrativas e o nascimento dos gêneros vistos no cinema passam pelas tragédias gregas e outros parangolés.
 
Nesse livro, o bigodudo do Nietzsche usa Apolo e Dionísio como parâmetros para explicar aspectos da arte e da filosofia da sociedade grega antiga, mas não só. Eles são filtros de entendimento do mundo, basicamente. E depois de ler o livro eu passei a analisar meus personagens e a mim com esses critérios, com esses filtros, o que foi um exercício bem interessante (de autodescoberta, inclusive).


 
Vou dar um exemplo pessoal. Em algumas épocas da vida eu me dedico de modo insano à academia e exercícios físicos, buscando um corpo “apolíneo”. Adoro ter um corpo legal, não tem como negar. Mas meu lado dionisíaco sempre me tira dessa rotina. Fico uns 2-3 anos com esse corpo legal e largo de mão a rotina de exercícios, que são trocados por outros “prazeres”. Se você me perguntar o que eu prefiro, acordar 6 horas da manhã pra correr ou abrir um vinho 6 horas da noite antes de ler, a resposta é... vinho e leitura! Mas se eu ficar desatento com alimentação e indisciplinado, vou me afastando do tal do corpo apolíneo até um ponto em que me irrito e começo tudo outra vez. Assim vai essa balança que não precisa necessariamente de um ponto de equilíbrio.
 
É algo natural na vida de muita gente, nenhum mistério. Pelo menos acho que sim. Pode ser na questão alimentar, ou quanto a exercícios, leitura, estudos, joguinho de Playstation (vocês zeram todos os jogos?), manutenção de um jardim, presença num curso, numa oficina de escrita, o que for. Nós mortais estamos sempre equilibrando Apolo e Dionísio, falhando em equilibrá-los, e admirando quem consegue ter um pé mais firme de um lado ou do outro.
 
Ah, notem que nós somos apolíneos em determinados assuntos e dionisíacos em outros. Pode haver um personagem apolíneo em todos os aspectos e um dionisíaco em todos os aspectos? Pode, sem dúvida. Mas está mais para exceção do que pra regra.
 
Outro exemplo pra ajudar: Uma pessoa pode ter uma alimentação apolínea – porque é muito importante pra ela ter uma alimentação saudável, por questão de saúde ou escolha pessoal – e a arte dessa pessoa ser dionisíaca, por exemplo. Pensando agora, meu sono é apolíneo. Dormir menos de 7 horas me destrói. Preciso dessa precisão (!) na minha vida. Em outras, fujo o quanto for possível da palavra rotina.


 
Pausa pra reflexão:
Se você não sabe quem é Apolo nem é Dionísio e quiser dar aquele primeiro passo nos mitos gregos, passe na Wikipedia e se divirta. Mas se quiser deixar a Wikipedia pra depois, tudo bem. O que nos interessa aqui, hoje, é a composição de um bom personagem que vá além das dicotomias.
 
Em vez de ficar citando Nietzsche, dei uma mastigada e fiz dois resumões. Vou falar um pouco de cada lado da nossa balança, em separado, para vocês entrarem no clima antes de montarmos os personagens. Bora lá!
 
APOLO
 
Apolo é ordem e disciplina. É clareza de pensamento, ou seja, é o pensamento racional que serve de base pra filosofia. Tem um temperamento sereno. Ele é a ordem na música, ele é a métrica. Ele é o corpo escultural, interessado na forma e, portanto, na individualização de cada um de nós. Ele é o nosso encanto pelo outro como indivíduo. Ele é solar, portanto luz. Será que Apolo vai pra balada assim como vai pra praia? Provavelmente vai e fica se exibindo a noite inteira, sendo o sol de si mesmo. Aliás, ele é o cara que chega à praia às sete da manhã pra pegar “o melhor sol e o mar vazio”. Com um longo histórico de amantes, Apolo é também sexo e amor, mas de um jeito diferente de Dionísio. Nietzsche diz que as artes que dão maior importância às cores, formas e perspectiva são apolíneas. Apolo é plástico, é a aparência, e muitas vezes só a aparência, ou seja, uma aparência ilusória. Por isso está ligado ao sonho, ao contrário do que eu pensava antigamente. Ligado também às metas, à criação dos objetivos. Apolo é mira.
 
 
DIONÍSIO
 
Dionísio, além de dar festinhas animadas e cheias de vinho, é a música além da métrica. É a ruptura da ordem que a música provoca. Ele é o deus da embriaguez. Desse descortinamento que rompe a ilusão e nos transforma em nós mesmos. Portanto, Dionísio é a realidade (e não a ilusão). Ele é a atitude desmedida, o instinto. Ele pode se manter sereno, mas uma serenidade cheia de ironia. Ele é o corpo que pode ser escultural, mas que não precisa ser escultural, porque ele não está interessado no prazer visual do corpo, mas no tato, no toque. Ele é o rompimento da individualização, a metamorfose que não se incomoda em ir se transformando, porque além do objetivo final ele gosta do que existe no caminho. Ele é o coletivo. Ele é geração beat. Se Dionísio vai para balada? Ele é o cara que dá a festa. Quando Dionísio não se disfarça com a ilusão, ele sabe quem é por trás da máscara, já que a máscara, a fantasia, é aquilo que o revela. Dionísio é o disparo.
 
É isso.
Querem dar uma relida?
Percebam que esses dois resumos são dionisíacos. É assim que a minha cabeça funciona quando escrevo, de um jeito labiríntico. Se fossem resumos apolíneos, provavelmente faria em tópicos, montaria uma escaleta. Sacaram a ideia? Acho que ficou tranquilo de entender a proposta, não?
 
São dois conjuntos, dois universos que se tocam e que nos ajudarão a criar um personagem daqui a pouco. Guardem isso na cabeça e já voltamos ao equilíbrio Apolo x Dionísio.
 



Segunda Parte: Diversidade.
 
Tinha feito um textão aqui sobre diversidade, mas decidi apagar. Quero que prestem atenção só em uma coisa: como vocês imaginam seus personagens? Eles são sempre vocês ou um reflexo do desejo de vocês? Ou eles têm etnias diferentes, sexualidades diferentes, desejos diferentes?
Se vc é branco, seu personagem é sempre branco?
Se vc é cis, seu personagem é sempre cis?
Se vc é heterossexual, seu personagem é sempre heterossexual?
Ou você consegue ir além de si mesmo pra criar a sua história?
 
Aliás, quando você lê o personagem de outra pessoa, você imagina todo mundo igual?
 
Pensem nisso com carinho, olhem pros lados. Existe um mundo incrivelmente diverso ao nosso redor pra nos servir de inspiração. Às vezes a sociedade força a barra pra parecer que não é bem assim, mas é.
 
Semelhança não é um grau de igualdade. A igualdade é um valor absoluto por definição. Se é parecido, já se supõem diferenças. E tá tudo bem sermos uns diferentes dos outros. Deixem seus personagens serem também, isso enriquece a literatura. Mesmo que isso não faça nenhuma diferença na história, crie-os em toda sua complexidade dentro da sua cabeça.
 
Sabe um exercício que ajuda muito? MUITO MESMO? Aproveitar o tempo no ônibus, no metrô, pra analisar os personagens à nossa volta. Ou parar num parque (bem mais prazeroso), ou até numa praça de alimentação de shopping, e observar. Em barzinho nem se fala! Ampliem o olhar de vocês. Percebam particularidades, inventem histórias para essas pessoas. Vocês ficarão surpresos com o resultado.
 
 

Criação de personagens – O Desafio!



Sim, sim! Acabou a conversa mole, o papo furado. É hora da PARTE 1 do Desafio de criação de personagens.
 
Para criar o personagem desse exercício, considere Apolo e Dionísio como fontes de seus ingredientes. Agora pense no que o seu personagem tem de Apolo e o que tem de Dionísio dentro dele enquanto cria uma personalidade para ele. Lembre que ele pode ser apolíneo na carreira e dionisíaco em outras áreas, por exemplo!
 
Beleza? Beleza.
Mas como eu quero que vocês me entreguem isso.
Em um texto de 1 página, quero que me apresentem esse personagem. Será um texto em primeira pessoa. Incorporem o personagem e mandem ver.
 



Não é me passar um currículo, nem ficha de RPG falando quanto calça, o tamanho disso, a cor d’aquilo. Tá mais pra alguém escrevendo em um diário. Criem uma ficção. Me digam o que o personagem fez, do que ele duvidou, se ele teve algum medo, alguma angústia. Se, ao contrário, foi um dia foda pra ele. Se ele / ela encontrou aquela menina que ele / ela está a fim. Se ele / ela teve um dia ruim no emprego, se tá pensando em largar tudo para trás. Se acabou de receber uma herança ou se ganhou um Funko raro num leilão!
 
Em outras palavras, pra vocês, o que é importante num personagem? Pensem nisso ao escrever. Fácil fácil!
 
Essa é a PARTE 1 do exercício. Vocês tem uma semana pra me entregar!
Repetindo UMA SEMANA, seus malandrões.
 
Quem mandar o personagem vai poder trabalhar com ele no desafio da semana que vem! Quem não mandar e quiser participar, vai ter que falar “Eric, quero escrever o conto, mas não mandei personagem” e aí eu mando um dos personagens que recebi dos demais participantes da lista. Combinado?
 
Uma semana, uma página.
 
Semana que vem eu vou pedir a PARTE 2, e ela vai pirar muito a cabeça de vocês. Eu pelo menos vou me divertir bastante.  Ah! E semana que vem conto qual foi o primeiro parágrafo mais usado por vocês no exercício anterior. Acho que deu um empate, na verdade.
 
Lembrem que se o nosso convidado especial realmente criar um desafio pra vocês junto com o material extra, esse desafio parte 1 e parte 2 será a nossa despedida, praticamente. Nossa última oportunidade de trocar uma ideia dentro da oficina. Caprichem porque vai valer a pena.
As imagens de hoje são personagens que acho bacanas. Sem mensagem subliminar dessa vez.
 
Fiquem bem,
Até o próximo domingo (ou sábado, vai saber)!