July 24, 2016

Oficina Colaborativa do Estranho Mundo - 6º Desafio / 2016

Oi, folks!
 
Chegamos ao fim da nossa oficina criativa. Espero que tenham conseguido extrair um mínimo de sentido do meu jeito labiríntico de enxergar a literatura e falar dela. Espero principalmente que tenham se animado a escrever mais e a mostrar mais os seus textos a essas criaturinhas chamadas leitores que nos trazem tanta felicidade.
 
Todos nós temos uma jornada de aprendizado durante a vida, isso é meio óbvio. A diferença com o artista é que certos pontos da sua linha do tempo são “congelados” na forma de livros, filmes, músicas, ilustrações, etc. para serem apreciados e criticados e outros ados por pessoas contemporâneas a ele e por pessoas que ainda nem estão por aqui.
 
Gosto muito de ir a exposições de pintores consagrados. A parte mais legal pra mim é ver o que era produzido além das obras de renome. A quantidade de trabalhos interessantes, a quantidade de borrões e rabiscos além de uma Mona Lisa sempre me impressiona. Existe um aprendizado aí em algum lugar. E não digo o processo de aprendizado do artista. Me refiro ao nosso aprendizado a respeito do mundo e de nós mesmos.
 

 
Quem leu a última newsletter já sabe, o responsável pelo nosso encerramento é o Felipe Castilho, nosso último convidado especial. Autor de livros, autor de HQs, consultor editorial, editor, professor... E uma das pessoas mais honestas que já conheci, no sentido amplo da palavra. Antes de passarmos ao texto dele, vamos aos recados!
 
(1)
O desafio do pelúcio: o menor número de envios de toda a oficina. Ouvi de muita gente que foi difícil escrever em primeira pessoa dentro de uma realidade que não é a nossa. A não ser que você seja um bicho de pelúcia, então seu caso seria diferente. Teve gente dizendo também que foi legal para perder o preconceito com 1ª pessoa. “Sempre achei que era coisa de iniciante, e que os textos mais complexos eram em 3ª.” Que bom que perderam essa impressão! Parabéns a quem tentou! Foi de fato um quebra-cabeça mais complexo.
 
(2)
Vou começar a devolver os exercícios na semana que vem. Aguardem e confiem. É provável que em algum ponto chegue uma última newsletter com o índice e a bibliografia da oficina. Sem teoria ou desafio. para facilitar quando vocês forem pesquisar algo.
 
(3)
Me mandem o feedback de vocês! Escrevo essencialmente para me comunicar. É minha forma de diálogo. Então... dialoguem, vai! :) Algumas pessoas fizeram isso essa semana. Vários e-mails chegando, muitos deles carinhosos. Me digam aí, a oficina ajudou de alguma forma?
 
(4)
Com o fim da oficina colaborativa, começaremos a newsletter do Estranho Mundo em breve! Tô pensando em transformar a quarta-feira no dia oficial e começar no dia 10 de agosto. Quarta-feira de noite venho dar um Oi oficial para todo mundo. Mais uma vez, conto com vocês na divulgação. Preciso muito do barulho de vocês. O “Deus Contra Todos” precisará muito do barulho de vocês.  Quando as notícias chegarem, vocês entenderão! ^^
 
(5)
É isso, folks! Chegamos ao fim :(
Torço para continuarmos em contato! Não sumam! Comentem, respondam de vez em quando para eu saber que vocês não são apenas números nas estatísticas da newsletter, tá bom? Da minha parte, só tenho a agradecer.
 
Deixo vocês nas mãos do Felipe agora.
 
[Felipe! Sua vez!]
[Pera aí rapidão, deixa eu só terminar esse pedaço de bolo.]
 



A teoria dos mínimos e dos máximos
por Felipe Castilho

 
Olá, vocês!
 
É uma honra ser convidado para parte desse projeto do Eric, e espero ajudar alguém com relação à parte criativa.
 
Podemos começar? Depois do abraço, claro, vem cá.
Isso, bora lá.
 
 
Uma coisa que sempre me ajudou muito a desenvolver um assunto com rapidez foi passar a ouvir a história que eu queria contar. Assim, em primeira mão, antes do leitor beta, dos editores, e muito antes dos leitores. Olha que privilégio <3
 
Seu livro pede algo. Quando você o começa, sabe qual é o início mesmo que não saiba o fim. Esse início pode mudar, claro.
 
Minha dica da semana é:
 
Lave uma louça.
 
Quanto maior a pilha, melhor será o tempo aproveitado de seu exercício.
 
Louça não precisa de pontuação, louça não precisa ser conjugada no tempo verbal certo, louça não tem nenhum novo acordo ortográfico vigente, louça não tem roteiro ou enredo. Louça é lavada de maneira automática, e a única coisa de que ela precisa é que seja bem-lavada. Você pode substituir uma lavada de louça por um banho, por exemplo. Banho também não tem enredo, no máximo uma escaleta (eu começo lavando a cabeça, por exemplo). Mas o banho tem que ser rápido porque a água do planeta está acabando (eu vi na internet, juro) e a louça você pode ensaboar com a torneira desligada. Então, aconselho você a fazer esse exercício lavando a louça mesmo. A não ser que você tenha o hábito de tomar o banho por lotes, molhando, desligando o chuveiro, ensaboando, ligando o chuveiro, até a maravilhosa conclusão que é aproveitar a água do tacho para lavar as xícaras de café das visitas. O que, achou um absurdo? Eu não vejo problema algum em tomar banho dentro de um tacho. É de madeira, é grande, é roots. Liberte-se de seus preconceitos.


 
O que vocês leram acima não foi verborragia gratuita. Quer dizer, gratuito foi, nem um centavo foi deduzido da conta de vocês. A não ser que vocês tenham considerado o minuto usado pra leitura um tempo perdido :(
 
Ok, existe algo ali naquele paragrafão. Um mínimo e um máximo. Falei de louça – o mínimo, o assunto mais banal e cotidiano. E existe um máximo, o ponto mais distante do lavar louças: o fim do mundo. Na parte que eu disse que a água do planeta está acabando, lembra?
 
Eu tracei uma linha entre os dois pontos mais distantes daquela breve narrativa. Entre louça ensaboada e um apocalipse rolando em um planeta seco onde a água vale mais que o extinto petróleo e mais que o sangue derramado – pois na busca pelo que há de mais precioso, muito sangue se derrama. Sempre.
 
Quando você traça o ponto mais próximo de você que a história se acomoda e o ponto mais distante que ela pode alcançar, você tem todo um meio para trabalhar. Tudo o que está entre o mínimo e o máximo pode ser delineado, e você consegue focar em tudo o que te possibilita a contar uma história.
 
Nós vivemos em função dessa busca do ponto mais distante. Quando procuramos alguém, não queremos semelhança. Queremos o ponto mais distante para encontrarmos tudo o que há de intermediário entre nós. É ali que as histórias acontecem, no intermediário entre duas coisas distantes e opostas. Toda a nossa história e a nossa história do mundo acontece nessa tentativa de ligação entre dois pontos – e eles nunca são uma linha reta. Você pode traçar uma linha reta, claro. Mas e tudo o que perdemos quando pegamos um atalho? E tudo o que aprenderíamos nos perdendo entre voltas e caminhadas em círculos? E todo questionamento que o “se perder” nos trás?
 
Pode parecer autoajuda barata, mas eu proponho que você aplique essa baboseira em sua narrativa.



 
PRIMEIRA PARTE DO EXERCÍCIO:
 
Pense na história que você quer contar.
 
Qual é a coisa mais próxima da banalidade que acontece nela? A resposta pode estar dentro do tal do Mundo Comum, tão alardeado na Jornada do Herói, ou dentro da cabeça de seu protagonista, na forma de um pensamento imaturo.
 
Qual é a coisa mais extrema que pode acontecer na sua história? A morte de uma personagem importante pode ser a primeira coisa que lhe vem à cabeça, mas nunca é a resposta definitiva. As consequências da morte de alguém, talvez sim... Um monte de vilões já nos disseram que há coisas piores que a morte. Pensa um pouquinho mais, vai.
 
Escreva essas duas coisas nos dois extremos de uma folha. Ou no inicio e no fim de um documento de Word. Deixe um espação entre elas e observe o espaço em branco ali começar a se preencher antes de você digitar as ideias. Ou deixe a folha ali e vá lavar a tal louça. É algo banal, e fazer o mínimo vai te deixar aberto o suficiente para encontrar um denominador completamente oposto. Ideias grandiosas costumam aparecer quando nossa mente está aquietada.
 
Pra lembrar:
 
  • No início de O Hobbit, Bilbo está completamente preocupado com o que pode acontecer com seus talheres e porcelanas durante a visita inesperada dos anões – That’s what Bilbo Baggins hate! Esse é o mínimo, a neurose de uma pessoa organizada e nada inclinada a improvisos e aventuras.
 
  • No outro oposto, no outro extremo da situação, Bilbo rouba a Pedra Arken, a entregando para Thranduil e os exércitos que sitiam a Montanha Solitária. O drama que resulta disso é um ponto muito além do despertar de Smaug ou da própria Batalha dos Cinco Exércitos. Estas são coisas que aparecem no caminho entre os dois pontos mais distantes, e apesar da dimensão delas, não é o mais extremo. O que há de mais desafiador na narrativa é a decisão de Bilbo de trair uma confiança conquistada e uma amizade nascida das diferenças. Novamente, pontos distantes em pauta. Os anões, que se amontoam à sua porta no Condado e ele detesta logo de cara, se tornam o que ele mais preza. Bilbo resolve colocar em risco a amizade e a confiança de Thorin para evitar um perigo maior para todos, mas o maior desafio do protagonista está ali, naquela linha, naquela traição.
 
  • Em O Hobbit, tudo acontece entre visitas inconvenientes (mínimo) e o perigo da perda de uma confiança tão duramente conquistada (máximo)
 
  • Em Um Sonho de Liberdade (Mr. Shawshank Redemption, adaptação cinematográfica do conto homônimo de Stephen King), Andy é traído pela esposa e amigo. Por pior que isso seja, dentro do contexto da história, a traição é o mínimo. Tudo o que vem depois é bem pior, começando pela acusação de duplo homicídio da esposa e “amigo”.
 

 
  • Cada situação que Andy enfrenta na cadeia, progressivamente, parece ser o máximo. Mas o próximo abuso sofrido sempre mostra que a coisa pode piorar. Olhando perifericamente para o filme, percebemos que o máximo da história é o perigo de jamais sair da prisão – e não estamos falando de prisão perpétua. Estamos falando de, mesmo que a liberdade lhe seja concedida, você jamais conseguir se libertar de ser um prisioneiro, de tirar os estigmas que a sociedade fará questão de reforçar e de te lembrar pra sempre que você jamais será um cidadão normal novamente. O personagem de Brooks, que comete suicídio após não conseguir se adaptar à vida fora das grades, coloca a bandeira no ponto mais distante, o máximo da história.
 
  • Até o desfecho, toda a trama se trata da jornada de Andy, que se recusa a continuar sofrendo os abusos na prisão, mas que também não quer o mesmo triste destino de Brooks em uma falsa liberdade.
 
SEGUNDA PARTE DO EXERCÍCIO:
 
Assista um filme, pegue o livro que você está lendo ou acabou de ler, ou termine um game que tenha te envolvido pela história. O importante é você analisar uma narrativa. Identifique o mínimo e o máximo que podem acontecer ali, e observe como essas duas coisas que possibilitam um melhor aproveitamento dos altos e baixos entre os extremos. Compartilhe a história que você está analisando, e se algum outro amigo já tenha lido/assistido/jogado a história que você escolheu, debatam sobre, esmiúcem os porquês, discordem! Muita coisa pode sair daí!
 
 
 
 
Simples, vai? Abstrato, não tem certo e errado, mas é simples.
 
Dado o exercício, espero vocês aqui em casa para um café. Todos convidados. Tenho um jogo de xícaras lindo esperando por vocês.
 
Um abração,
 
Felipe
 
 

É isso, folks.
Além dos exemplos do Felipe, pra quem for de seriado, deixei três exemplos que fazem exatamente o que ele tá comentando nos filmes. Bem, quase todo mundo faz. Mas esses três fazem de forma mais didática. Como tá todo mundo assistindo a Stranger Things, fica de sugestão essa análise mais crítica do seriado entre um susto e outro (ou entre um bocejo e outro, dependendo do episódio). E o Dexter, bem, mais didático só se o Michael C Hall saísse da tela e pegasse na nossa mão. Mas se isso acontecer, talvez seja melhor sair correndo. Com Penny Dreadful o jogo já é mais complicado, porque o seriado era mais apoiado nas atuações do que no roteiro.
E eu ainda não vi o final, então não me contem! :b

Já deu pra notar que tô adiando o inevitável, acho... Mas a hora é agora.
A Oficina Colaborativa de 2016 fica por aqui, folks!
Quem sabe a gente não volta a se encontrar lá no Padrim?
No mais, vida longa à newsletter do Estranho Mundo de Eric!
Continuem escrevendo. Do jeito que for, da forma que for.
É o que eu farei.