March 05, 2016

Cinco perguntas sobre moda ética

{Slogan em alemão com mensagem promovendo o consumo de produtos locais}

Moro no sul da Alemanha e sempre que a saudade de uma cidade grande aperta pego o trem em direção a Munique. Algumas semanas atrás, entrei por acaso na Hirmer, uma grande loja de departamento da cidade especializada em vestuário masculino. Em todos os andares era possível encontrar um tablado como o da foto acima com a  frase “compre localmente” e algumas peças dispostas sobre ele. Achei a ideia fantástica e, como pude ler em folhetos, algumas das roupas eram de marcas que verdadeiramente mantinham toda a sua fabricação em Munique e arredores. Porém, conhecendo o mau uso desse tipo de marketing, resolvi dar uma olhada na etiqueta de um boné de uma marca chamada FY-FY, cuidadosamente exposto nessa seção. A marca exibia todo o seu orgulho de ser proveniente da Baviera. Entretanto, a etiqueta carregava um discreto “Made in Vietnam”. Como repetirei aqui provavelmente em todas as newsletters, comprar eticamente não é simples e os obstáculos nem sempre são claros.

Reuni na forma de cinco perguntas algumas das informações que considero bons guias para se pensar em consumo ético de moda. Espero que ajude a esclarecer algumas dúvidas. Se ainda sobrarem questões que estejam atrapalhando você a entrar de corpo e alma na empreitada de comprar roupas produzidas eticamente, não hesite em me escrever. A ideia é aos poucos encontrarmos juntos respostas para as novas perguntas que forem surgindo.


De todos os setores, por que começar a se preocupar com consumo ético justamente na moda?
 
Naturalmente, o ideal é que um padrão de consumo mais consciente e atento permeie todas as nossas escolhas. Saber de onde vem e como foi feito aquilo que você compra, desde o seu alimento até o seu eletrônico, deve ser uma preocupação constante, seja para a sua saúde e bem-estar, seja para a saúde e bem-estar de quem produz aquilo que você consome. A ideia de começar pela moda responde a características específicas da indústria, que fazem esse princípio ser mais fácil e mais urgente. Primeiro, é bem possível que você já tenha no armário roupas suficientes para os próximos 10 ou 20 anos. Tirando casos extremos de ganho ou perda de peso, tendo roupas com tecidos de qualidade, é possível viver com as mesmas peças por décadas. Logo, nosso consumo de moda é muito mais voltado para a satisfação de desejos do que para o atendimento de necessidades. Lógico que a vida também é feita de supérfluos. Mas, já que eles não são necessidades básicas, podemos gastar mais tempo pesquisando sobre as cadeias de produção antes da próxima compra. Mais do que isso, já existem opções éticas na moda, ainda que sejam poucas. É difícil dizer o mesmo do mercado de eletrônicos. É possível sim, encontrar produtos montados em condições de trabalho melhores, mas o mesmo ainda não pode ser garantido sobre a produção dos componentes. Se a dúvida recai sobre o impacto que a mudança de consumo de roupas pode trazer para o planeta, as dimensões não são nada tímidas. Estudos apontam que a indústria da moda é a segunda maior poluidora, perdendo apenas para a indústria do petróleo. No que diz respeito à poluição industrial de água limpa, a indústria têxtil representa 20% do total, segundo dados do Banco Mundial.
 
O país de origem da peça diz muito sobre a ética da sua produção?
 
Não exatamente. Pela lógica, de forma geral, países mais desenvolvidos, com leis trabalhistas mais rígidas e fiscalização mais eficiente, abrigam fábricas com condições de trabalho dignas e garantem salários mínimos que sejam suficientes para assegurar qualidade de vida aos trabalhadores. Nesses casos, mesmo que o fabricante cumpra apenas com o mínimo exigido por lei, há certa garantia de que os padrões de produção são éticos. Porém, na prática, nem sempre a fiscalização é assim tão boa nesses países. Ainda que a legislação de Itália e Brasil, por exemplo, garantam direitos trabalhistas claros, isso não impediu que os dois países estivessem envolvidos em escândalos de uso de trabalho escravo em confecções clandestinas. No caso italiano, o nome de um país da União Europeia na etiqueta talvez afastasse qualquer suspeita, mas não impediu que em 2013 sete trabalhadores chineses morressem no incêndio de um galpão em que trabalhavam e moravam. A exploração de trabalho de imigrantes na indústria têxtil italiana chegou a ser denunciada pelo Papa Francisco em 2015, em pronunciamento na cidade de Prato, centro da região especializada em produtos de moda na toscana. No Brasil, não foram poucos os escândalos envolvendo trabalho escravo, condições insalubres em fábricas e confecções, assim como cargas de trabalho e exigência de tarefas que não respeitam as normas de segurança do trabalho. O último caso, já em 2016, veio à tona com a condenação da marca de fast-fashion Riachuelo depois que uma costureira desenvolveu uma lesão por movimento repetitivo.
 
Existem ainda os países que são escolhidos para receber as fábricas têxteis justamente por serem conhecidos por suas leis trabalhistas frouxas ou inexistentes. Mesmo quando existe um salário mínimo estipulado, ele não é capaz de prover o mínimo necessário aos assalariados e suas famílias. Na busca incessante por países cada vez mais permissivos, a Ásia assistiu nos últimos anos a uma dança das cadeiras, com fábricas migrando da China para Bangladesh e de Bangladesh para países como Myanmar, fugindo do endurecimento gradual das leis trabalhistas e do aumento do custo da mão de obra. Ao que parece, a próxima fronteira é a migração da produção para o continente africano.
 
No pior dos casos, fábricas em países com legislações já fracas nem sequer cumprem o mínimo exigido, como acontece com alguma frequência na China. Entretanto, o contrário também já existe, com fábricas de alto padrão e programas de trabalho dignos em países com má fama nesses quesitos. É o caso, por exemplo, da produção da marca People Tree em Bangladesh, que ganhou visibilidade ao ter seu trabalho ético divulgado no documentário The True Cost. Resumindo, o país de fabricação do tecido ou da peça de roupa não deixa de ser um indício. Mas, hoje, por mais trabalhoso que seja, ainda é preciso pesquisar e analisar caso a caso.  
 
E o preço das roupas?
 
Sim e não. Se por um lado preços extremamente baixos como os praticados pelas cadeias de fast-fashion só são possíveis com negligência ou total violação de direitos trabalhistas, peças caras não são garantia de uma cadeia de produção ética. Na fábrica Rana Plaza em Bangladesh, cuja queda em 2013 causou mais de 1100 mortes e marcou o começo de um movimento robusto da sociedade civil por uma moda mais ética, eram fabricadas peças para marcas não tão baratas, como Mango e Benetton. No mesmo país, são produzidas até hoje roupas de grifes como Hugo Boss, Armani e Ralph Lauren. Enquanto a primeira alega ter tomado nos últimos anos medidas para assegurar maior segurança nas fábricas terceirizadas com as quais trabalha, a Ralph Lauren se negou a assinar em 2014 um acordo internacional que visava melhorar as condições de trabalho em Bangladesh. A produção de moda não-ética é um negócio extremamente rentável tanto para fast-fashions, quanto para marcas de luxo. Uma olhada rápida na lista da Forbes de 2015 mostra em quarto lugar (US$ 64,5 bi) Amancio Ortega, fundador e dono da Zara. Na 28ª posição (US$ 24,5 bi) está Stefan Persson, dono da H&M e em 35º lugar (US$ 21,5 bi), Phil Knight, dono da Nike. Ficando apenas entre os 200 primeiros colocados, ainda podem ser encontrados Giorgio Armani (em 174º lugar, com US$ 7,6 bi) e Ralph Lauren (em 193º lugar, com US$ 7 bi). Em muitos casos, os altos valores das etiquetas podem significar apenas uma maior margem de lucro para marcas que se apoiam na credibilidade dos seus países de origem (nos casos citados, respectivamente Alemanha, Itália e Estados Unidos). Da mesma forma, roupas e acessórios feitos por pequenos artesãos podem ter preços convidativos, ao mesmo tempo em que a cadeia produtiva pode ser mais facilmente verificada. Se o material usado for de alguma forma proveniente de reciclagem, ainda melhor. Essas peças dificilmente serão tão baratas quanto as disponíveis em lojas de fast-fashion, mas para se comprar eticamente é preciso antes de tudo compreender que esse é um padrão insustentável. 
 
Por que comprar em brechós é mais sustentável?
 
Assim como ao comprar uma roupa nova, se a pessoa não conhece previamente o nome na etiqueta, fica difícil saber se a cadeia de produção que deu origem à peça é ética ou não. Para entender porque comprar em brechós (ou reutilizar roupas de familiares e amigos) é o mais ético e sustentável possível é preciso ter em mente que, quando se trata de consumo, não existe “impacto zero”. Toda roupa nova, por mais que seja feita localmente, em fábricas bem preparadas e com profissionais bem remunerados, exige uma quantidade grande de água, tecido e energia para ser produzida. A ideia de buscar marcas que produzem eticamente é sem dúvida diminuir ao máximo esse impacto, mas ele não deixa de existir. Porém, quando se aumenta a vida útil de uma peça que do contrário seria descartada, isso evita o impacto de produção de uma nova peça, embora aquela roupa seja da mesma forma uma novidade para quem a compra (ou ganha). Ainda que não seja fácil garantir que ninguém sofreu para que aquela peça fosse fabricada, se evita que alguém sofra para que mais uma peça seja produzida. A sustentabilidade da roupa de segunda mão está no fato de que, além de evitar o descarte de uma peça que ainda tem serventia, diminui-se a necessidade de produção de mais uma peça, com todo o custo ambiental e social que isso significa.
 
Além disso, peças que sobrevivem aos anos costumam ser as de maior qualidade, feitas com melhores tecidos e numa época em que as roupas não eram criadas com a mesma lógica de obsolescência programada que reina no fast-fashion. Assim, costumam ser peças que foram produzidas quando as relações de trabalho na indústria da moda não eram tão abusivas. Outra forma de reaproveitamento que se usa cada vez mais é o reaproveitamento de tecido (também conhecido como upcycling). Roupas antigas que não agradam pela modelagem podem ser levadas a uma costureira ou um alfaiate para que sejam ajustadas ou remodeladas por completo. Além de pagar diretamente a quem faz o serviço, o impacto é infinitamente menor no que diz respeito ao cultivo e preparação dos tecidos (processo extremamente poluente, principalmente por causa das tinturas e lavagens).
 
Por último, o maior atrativo em roupas de segunda mão é o preço. Elas são uma alternativa consciente para quem ainda não se convenceu a investir um pouco mais por uma nova peça de roupa produzida eticamente.
 
Doar as roupas que não uso mais resolve o problema?
 
É claro que entre jogar fora roupas ou doá-las a segunda opção é melhor. O erro está em acreditar que a doação resolve a questão do consumo excessivo de peças desnecessárias e que muitas vezes não são sequer usadas. Não é incomum que pessoas se sintam mais confortáveis para comprar roupas novas usando a estratégia de sempre doar uma peça antiga quando outra nova entra no armário. Mas para onde vai essa roupa? No Brasil, o mais comum é dar diretamente para alguém mais pobre que possa reaproveitá-la. Na Europa e nos Estados Unidos, que concentram o maior mercado consumidor de roupas, as peças descartadas costumam ir para brechós mantidos por ONGs religiosas e seculares. O objetivo é angariar dinheiro para suas causas com o dinheiro da venda de roupas usadas. Porém, nem toda roupa doada está em condição de ser vendida, assim como nem toda roupa em exibição encontra um comprador (no Reino Unido, estima-se que apenas entre 10% e 30% delas sejam vendidas). Nesses casos, existem alguns caminhos possíveis para a peça descartada. Ela pode ser vendida a quilo para uma fábrica que recicla tecidos, o que é algo bem interessante. Entretanto, muitas vezes não é possível reutilizar todos os tipos de materiais. Isso faz com que a roupa siga um segundo caminho possível, o do lixo, onde demorará anos para ser decomposta. E isso só se tiver a sorte de não ser feita de um tecido sintético.
 
O terceiro caminho, e talvez o menos conhecido, é a exportação, principalmente para a África. As lojas revendem por baixos preços e em grande quantidade as roupas que não foram compradas para empresas especializadas em enviá-las em contêineres para diversos países do continente africano. Lá, elas são vendidas e revendidas em mercados populares por preços bastante baixos, semelhantes proporcionalmente ao das fast-fashions nos países desenvolvidos. A origem de doação dessas roupas é bem conhecida no seu destino. Na Nigéria, são conhecidas como “kafa ulaya” (cuja tradução é “roupa de brancos mortos”) e, em Moçambique, como “roupas de calamidade”. O problema dessa nova forma de negócio entre os dois continentes é que as roupas entram no mercado africano competindo de forma desigual com a pouca produção local. Como são o restante de várias seleções e não tem valor comercial nos países de onde são enviadas, seus preços são extremamente baixos mesmo com o acréscimo da margem de lucro de todos os intermediários do processo de compra e venda.
 
É claro que em comparação ao descarte descuidado é muito melhor que as roupas estejam sendo reutilizadas seja lá onde for. O problema é que o consumo massificado e compulsivo promovido pelas marcas de fast-fashion faz com que haja uma enxurrada de roupas sem uso, que são insustentáveis social e ecologicamente. O caso das roupas de segunda mão na África é apenas mais um capítulo do problema enorme criado pela produção desordenada e o consumo sem critérios éticos. Não há nada de errado em doar peças que não são mais usadas, isso só não pode em hipótese alguma ser uma desculpa para a manutenção de um padrão de compra alucinado.
 

Panorama

Pode um terno inglês ser feito no Camboja?, BBC (ING)
A loja Marks and Spencer, que tem sido a responsável por fornecer ternos ao time de futebol inglês, fabrica as peças no Camboja. O tecido continua a ser inglês, assim como toda a propaganda ao redor das roupas, mas a produção foi transferida para o sudeste asiático. A matéria traz um mapa de todo o caminho percorrido pelos ternos, desde o tecido até o produto final. O interessante é perceber que todo esse trajeto é possível pelo barateamento dos transportes, mas não soluciona o problema do custo ambiental de todo esse deslocamento. Outro ponto é, mais uma vez, discutir a discrepância entre a propaganda feita de um produto, com todo o valor agregado pela ligação com um símbolo de nacionalismo inglês como a seleção de futebol, e a verdadeira origem da roupa. A questão vai além de produzir eticamente em países em desenvolvimento: ainda falta muita transparência na indústria da moda. Para piorar, uma matéria do The Guardian denuncia que a mesma Marks and Spencer está sendo acusada de pagar salários muito abaixo do mínimo necessário para a sobrevivência de trabalhadores em países como Bangladesh, Sri Lanka e Índia.

Costureiras contra o “made in China”, El País (ESP)
A matéria conta a iniciativa de um grupo de costureiras do norte da Espanha em revitalizar a indústria têxtil local fazendo frente à concorrência da mão de obra barata chinesa. Para isso, apostaram no talento de um trabalho de costura extremamente especializado e altos critérios de sustentabilidade em toda a produção. Dentre as dificuldades encontradas no percurso estão a revitalização da cadeia de produção ligada à indústria têxtil, que estava praticamente em ruínas no país, e a difícil concorrência com os preços chineses: num pedido de cinco mil peças, cada uma sairia por 1,50 euros na China, enquanto saem por 7,50 euros nas fábricas revitalizadas da Galícia. As empreendedoras acreditam que, num mundo que começa a se preocupar com a origem da sua roupa como já se preocupa com a origem de sua comida, há espaço para uma nova forma de fazer moda.

Insecta Shoes
Mais de uma pessoa já havia me indicado essa marca gaúcha de sapatos que produz seus pares a partir de tecidos de roupas compradas em brechós (olha o upcycling aqui de novo). O solado é produzido a partir da reciclagem de borracha descartada pela indústria e nenhum dos materiais usados é de origem animal. Minha única pena é que, embora exista uma preocupação muito grande em se falar dos materiais, quase não há informação sobre a produção. Apenas consegui descobrir que ela é terceirizada, o que sempre causa alguma preocupação conhecendo os problemas trabalhistas muitas vezes encontrados nas confecções brasileiras (no site da marca, há o comentário de que os operários são devidamente assalariados, mas não há qualquer indicação de qual é a fábrica, se ela recebe inspeções periódicas e quais são as demais condições de trabalho). Já demos muitos passos numa maior preocupação com a sustentabilidade na moda, mas ainda é preciso que mais seja exigido no que diz respeito à transparência da cadeia de produção. A vantagem é que, com tecidos reaproveitados, diminui-se a pegada social da produção. De toda forma, fica como opção para quem procura uma opção vegana de calçados que, ainda por cima, são muito bonitos.

Experimento social do movimento Fashion Revolution (ING) – 2:00

A ação de conscientização do vídeo acima foi feita pelo Fashion Revolution, um grupo internacional que é hoje um dos maiores responsáveis por promover o debate sobre moda ética. A campanha foi muito bem recebida e cerca de 90% das pessoas envolvidas optaram por fazer uma doação. O experimento foi feito no ano passado, em abril, mês em que se celebra o Fashion Revolution Day (dia de revolução da moda) no aniversário da queda da fábrica Rana Plaza em Bangladesh. O dia específico é 24, mas vários eventos são realizados durante todo o mês. Na próxima newsletter, falaremos mais sobre o movimento, sua origem e as celebrações marcadas para abril deste ano.
 

O que mais?

Escrevi um texto com dicas para um consumo mais consciente e ético de moda para o site Lar Natural. Se você quiser dar uma olhada, pode encontrá-lo diretamente clicando aqui.