November 22, 2016

Dia da consciência negra, cultura pop e bla bla bla... (odeio títulos)

Muita gente me pediu pra escrever um post sobre o Dia da Consciência Negra. Humn... Mas, eu já falei tanto disso em outros lugares e sobre assuntos parecidos - pelo amor de Chtulhu, eu fui metade da dupla que criou o Manifesto Irradiativo e outras coisas. Então, decidi pegar um texto que eu havia sido convidado para escrever - foi para o blog "Nem Um Pouco Épico". Então, acho que o melhor que posso fazer é colocar aqui o que já falei lá e que ilustra muito da minha opinião sobre o assunto.

Sabe, é um trabalho diário, constante e tal. Então, vamos aos poucos, vamos de boa. E... em caráter especial, amanhã tem OUTRA newsletter. Damn! We gotta keep it runnin, hon. =)
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O mundo mudou bastante nos últimos anos, numa velocidade impressionante e de forma pesada. Uma coisa que pude notar claramente foi o aumento no destaque que pessoas negras ganharam na cultura pop e na literatura – que é o mundo onde transito. Eu cresci no fim dos anos de 1990 e inicio dos anos 2000, acompanhei o mundo pela TV, revistas de música, quadrinhos, cinema e outras formas da arte em massa. Acompanhei o momento em que Jay-Z deixou de ser aquele de Reasonable Doubt e vi ele tomar o mundo com The Bluenprint, vi Barack Obama ser eleito – e tinha uma foto dele como capa do meu caderno de escola, o que ele veio a ser como presidente é outra coisa, mas naquela época ele parecia gigante – e o momento em que Will Smith tomou papéis que seriam de atores brancos e se tornou um astro de primeiro escalão. Isso tudo me faz voltar a um ponto, quando eu era criança, o único protagonista de cor que eu conhecia era o Super-Choque, ou Static Shock em seu nome original e nos quadrinhos da DC, criado por Dwayne McDuffie, que faleceu em 2011.

O Super-Choque, pra mim, foi o primeiro personagem negro na TV que era um garoto comum, feito Peter Parker, complexo e que vivia suas aventuras sem ser o sidekick, ele não era o Robin de nenhum Batman e era possível se identificar com suas histórias e com sua personalidade, mesmo quando ele errava. E é mérito de McDuffie que muitas pessoas tenham tido essa experiência, imagine como muitas crianças de cor se sentiram ao ver um super-herói parecido com elas e que era muito mais do que uma cor. Foi o Super-Choque que também me fez pensar, onde estão outros parecidos com ele? Onde estão mais personagens tipo?

Sempre houve um problema de representação racial no mundo da cultura pop – quantos livros YA tem protagonistas de cor, livros de fantasia, quantos desenhos animados, animes, filmes e coisas do tipo? Se fizéssemos uma busca na internet encontraríamos um punhado, uma busca fácil, na verdade, onde encontraríamos os mesmos de sempre e alguns obscuros – como a trilogia Jogo-da-Velha da Malorie Blackman. É justamente por temos tão poucos personagens de cor que um filme como Pantera Negra da Marvel se torna importante, porque imagine que pode ser a primeira vez em muitos anos que uma criança negra vai ter um herói em quem se espelhar, para quem olhar e pensar aquilo que eu pensava sobre o Super-Choque: Ele é awesome. Um herói negro que crianças brancas vão poder admirar e ter noção de que qualquer um pode ser um herói. E acredite em mim, todo mundo precisa se ver e se visto na ficção – ainda que a melhor ficção do mundo seja apenas a sombra de uma pessoa real. Eu só fui reencontrar esse sentimento novamente anos depois com Avatar: The Last Airbender. Isso é a minha experiência como garoto, fico imaginando se as meninas tiveram pelo menos um equivalente para o Super-Choque.

Para as pessoas de cor – e uso a expressão porque não são apenas os negros, temos orientais, latinos e muitos outros grupos mal representados – toda obra de ficção com um membro de sua raça é uma declaração política. Pantera Negra, Super-Choque e Miles Morales carregam mais peso com eles do que outros personagens, pelo simples fato de que eles possuem a rara oportunidade de representarem pessoas que quase nunca tem a oportunidade de serem representados corretamente. Porque as pessoas de cor estão cansadas de serem o final de uma piada, os alívios cômicos, os primeiros a morrerem nos filmes de zumbi e os burros. Pensa só como um oriental deve se sentir ao assistir “Bonequinha de Luxo” e ver o Sr. Yunioshi sendo representado por um homem branco “fantasiado” de oriental. Ou negros que assistiram "Birth of a Nation" (aquele do W) ou "Song of The South" da Disney.

Muita gente pode dizer que isso não faz muita diferença, que é só ficção, que é apenas uma história, mas eu digo que não. Por quê? Porque somos feitos de histórias, tudo o que somos é a soma das pequenas e grandes narrativas da nossa vida. Somos o resultado de tudo o que nos aconteceu e de tudo aquilo que nos influenciou. Acho que posso explicar isso melhor com um exemplo: Todo mundo me pergunta o motivo do meu ódio absoluto e irredutível para com Monteiro Lobato, a resposta é simples, ele me machucou.

Quando eu estava na quarta série nossa professora nos mandou ler um livro do Lobato, não me lembro qual. Eu sei que enquanto eu lia eu me senti mal quando vi a Emília chamando a Tia Anastácia de macaca, beiçuda, preta burra e outras coisas. Eu me lembro de ter me sentido envergonhado, triste e alguma outra coisa, afinal, aquele era o autor infantil mais famoso do país, o mais elogiado, aquele que meus pais leram – eu sou adotado e o único numa família majoritariamente branca de classe média – e que todos os meus familiares recordavam com tanto afeto de suas infâncias. Eu li aquilo e eu me senti errado por não ser como meus pais, irmãos e colegas de classe numa das melhores escolas da cidade – se pra mim foi assim, imagina para aqueles que não tinham os mesmos privilégios e acessos que eu. Eu sei que eu sou uma exceção, mas mesmo assim, aquilo me machucou. Foi uma marca tão indelével e profunda que passei anos mentindo que gostava de Monteiro Lobato e mentindo pra mim mesmo que eu que era burro demais pra não ter entendido toda aquela sabedoria, afinal, eu era só um moleque. E o fato é que não havia nenhum outro livro juvenil pra contradizer aquilo, nenhum desenho animado ou filme, na verdade todos pareciam confirmar aquilo. Eu li Robinson Crusoé aos dez anos de idade e o personagem negro (Sexta-Feira) era um selvagem. Li A Ilha do Coral aos doze, todos os personagens de cor eram selvagens burros. Li A Tempestade aos treze (e aqui estamos falando sobre meu autor favorito, William Shakespeare, o centro do cânone ocidental) e Caliban era uma fera tentando estuprar a filha de Próspero.

Eu cresci me sentindo inadequado justamente por não me ver nas obras de ficção, por não me sentir parecido com nenhum herói da cultura, apenas com os vilões, palhaços e drogados que viviam de golpes e não tinham estrutura familiar. E como uma criança que vivia numa família com assinatura da Veja e do Estado de Minas, eu ainda não tinha contato com cinema alternativo, livros importados, animes por streaming e seriados de todos os países do mundo, início dos anos 2000, a internet não era lá essas coisas.

Foi nesse meio que comecei a escrever, alimentado por todos os autores brancos do cânone, os quadrinhos homogêneos e um sentimento reprimido de culpa com relação a minha identidade racial. É um processo lento e que ainda está acontecendo, e embora eu tenha orgulho dos meus dois primeiros livros, Annabel & Sarah e A Morte é Legal, eles ainda mostram um eu em conflito comigo mesmo, optando por representar personagens brancos de classe média/alta e um mundo que não era o meu. Rani e o Sino da Divisão, um dos meus livros mais recentes, foi o primeiro passo consciente na tentativa de me livrar daquilo que Monteiro Lobato, Veja e a TV fizeram comigo, foi a primeira vez que escrevi uma protagonista negra que seria tudo aquilo que diziam que uma pessoa negra não poderia ser, foi o meu primeiro passo para um processo de desconstrução psicológica. Uma construção que não teria acontecido caso eu tivesse algo como Avatar: The Last Airbender quando criança, ou Sleepy Hollow com sua Abby Mills, Miles Morales como Homem Aranha e mais cientistas de cor em todos os livros de ficção-científica que li, ou mais pessoas como o pessoal que está hoje nas ruas e escolas e blogs, mostrando o outro lado das coisas que não vemos na mídia.

O primeiro passo para essa mudança toda surgiu enquanto eu escrevia A Morte é Legal, eu estava pesquisando o mundo do rap para escrever a personagem Amber, uma garota (branca) de classe média alta que entra no mundo do rap para duelar versos debaixo de um viaduto. Foi durante essa pesquisa que conheci Tupac Shakur e isso me mudou. Foi a primeira vez que vi alguém dizendo: É okay não ser branco, não tem nada de errado, não tem nada para se envergonhar. Foi ouvindo Me Against The World sem parar, os dois discos do The Notorious B.I.G, Emicida, NWA, Grandmaster Flash, Missy Elliot, Nas, Rakim, Roxanne Shante, Public Enemy e outros que vi orgulho onde antes só havia vergonha. Rapidamente eu descobri o lado problemático do rap, com sua misoginia, apologia a violência e homofobia – principalmente no gangsta rap, mas ainda assim foi o rap que me mostrou algo que eu nem sabia existir. Foi Tupac, que nasceu na cadeia, filho de uma Black Panther (all hail Afeni Shakur), e que me disse:

I know it seem hard sometimes, but uh… Remember one thing, Through every dark night, There’s a bright day after that, So no matter how hard it get, Stick ya chest out, Keep ya head up, And handle it.

Eu sei que parece difícil algumas vezes, mas uh… Lembre-se de uma coisa, Depois de toda noite escura,  Há um dia brilhante, Então não importa o quão difícil fique, Estufe o Peito, Levante a Cabeça, e Enfrente Isso

É por esse motivo que precisamos de mais representação para todos, não apenas negros, na nossa cultura. Porque é através da arte que pessoas se encontram, se veem refletidas e recebem as ferramentas necessárias para lidar e entender o mundo ao seu redor. O mundo é plural e com pessoas dos mais diversos tipos, é isso que faz dele possível de maravilhas, horrores e as coisas mais fantásticas do mundo. E para finalizar usando outra frase de Tupac Shakur: Precisamos começar a fazer mudanças, aprenda a me ver como um irmão, ao invés de sermos dois estranhos distantes, e é assim que tem que ser, como poderia o mal levar um irmão se ele está próximo de mim.

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PS: Um abraço!