July 28, 2016

Palimpsestos #04: A tradutora que queria ser outra




Olá, pessoal!

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Uma das coisas que me deixam mais felizes no YouTube são as apresentações ao vivo no KEXP. Desta vez trago o Moderat, trio de Berlin que está lançando o terceiro disco agora. Clica aqui e escuta enquanto lê. A terceira faixa, "Intruder", me capturou por completo. 

Para quem já me acompanhava por aqui, as primeiras notícias que dou são sobre o fim do programa de residência de tradução em Banff! Cheguei há algumas semanas, mas por motivos alheios à minha vontade, só agora consegui parar para escrever. O primeiro volume dos contos da Mansfield está quase todo pronto -- isso quer dizer que nas próximas semanas começaremos os preparativos finais. 

Em Banff, tivemos nove mesas-redondas ao todo. Alguns dos temas discutidos, a modo de ilustração, foram:

-- Quais são as estratégias dos tradutores para recriar dialetos e gírias, quando possível? E quando não é possível?
-- Qual a diferença entre ser um tradutor que escreve e um escritor que traduz? Como isso se reflete no texto escrito (de ficção, de não-ficção) e nas traduções?
-- Até que ponto é importante entrarmos em contato com os autores, e como promover esse diálogo?
-- Quais os limites de aproximação e cruzamento entre duas linguagens e duas culturas na tradução?
-- O que significa para um tradutor (em termos pessoais e profissionais), traduzir a obra inteira de um autor, ou passar anos a fio traduzindo um único autor? (Mais precisamente: torna-se a voz do autor naquela língua? Como separar as coisas?)
-- Que estratégias usar para traduzir poesia escrita na Idade Média para um público moderno? Cabe atualizar o uso dos pronomes ou martelar no "tu" e no "vós" (no caso do português)? 

Para profissionais mais experientes, talvez pareçam questões óbvias. Mas a dinâmica da tradução se dá justamente nisso: por mais óbvias e reincidentes, as questões nunca são exatamente as mesmas, porque a gente aprende é no caso a caso, no diálogo com o autor, na nossa relação com o próprio texto. A solução que serviu para determinada tradução e para um contexto específico pode não servir num caso diferente. Posso optar por representar gírias adolescentes seguindo determinado registro usado em português ao traduzir David Baldacci, mas quando passo para Ted Sanders, a mesma solução deixa de fazer sentido, e pode fazer menos ainda numa distopia, e menos-menos ainda na voz de um adolescente do século XIX. Por isso discutimos tanto. Por isso aprendemos constantemente.

Também falamos muito sobre duas questões que trago agora, brevemente. 

A primeira: escrita criativa. Muitos cursos de tradução fora do país oferecem oficinas ou aulas de escrita criativa para os alunos. No Brasil (e corrijam-me se eu estiver errado), nenhum. Saber escrever é o primeiro pré-requisito para quem quer traduzir, e saber escrever bem. A australiana Alisson Entrekin, tradutora para o inglês de diversos títulos da nossa literatura, diz mais que corretamente que o tradutor tem de ser escritor, tem de ter alma de escritor, tino de escritor, tônus de escritor. Não vou entrar nesse momento no mérito dos cursos, mas além de se concentrar mais na prática da tradução, nosso ensino precisa promover a escrita. 

A segunda: cotejo na preparação de texto. Resumindo para quem não está familiarizado com o processo de publicação: via de regra, depois que o texto é traduzido e segue para a editora, ele passa por uma preparação de texto antes de ser diagramado, ou seja, é feita uma leitura minuciosa, procurando dar fluidez ao que está truncado, conferir lapsos de sentido, padronizar referências e elementos textuais, corrigir possíveis erros de interpretação, datas, nomes etc. E a preparação pode ou não envolver o cotejo da tradução com o texto original. Em alguns casos, esse cotejo acontece frase por frase; em outros, mais como uma visão geral, em que o texto original só é consultado para esclarecer alguma dúvida que porventura surja no processo. Correções feitas, o texto é diagramado e só depois passa por uma ou duas ou três revisões mais gerais, centradas em gramática e erros de digitação. Mas o processo é fluido, e também pode mudar de obra para obra, tradutor para tradutor.

Não preciso discorrer aqui sobre a necessidade e a fundamentalidade das preparações de texto. E quando há um cotejo, melhor. Bato sempre nessa tecla porque acho bom valorizarmos todas as etapas da produção de um texto, e, além disso, promover e defender que haja um diálogo dos tradutores com os preparadores e revisores. Para minha surpresa, o cotejo é algo que raramente acontece nas traduções publicadas nos Estados Unidos e no Canadá. Com exceções, é claro. É natural que num país como o nosso, que tem uma cultura forte de tradução, o mercado e a prática exijam e criem determinadas formas de lidar com seu produto. Eu diria que somos "especialistas" em publicar traduções, de tanto que publicamos. Nos Estados Unidos, país que publica pouquíssima literatura internacional (desnecessário reiterar aqui o argumento da cultura dominante e da dominada), é mais que natural, em termos culturais, considerar o texto do outro uma autoria talvez menor. A responsabilidade do tradutor, nesse sentido, é redobrada. E o resultado de não haver um cotejo são muitos, que não vão caber neste texto. Estou me referindo a processos, modos de fazer, diferentes para cada cultura, e que também variam de obra para obra, de editora para editora. 

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Cada newsletter que eu escrevo me deixa com a sensação de que ainda há muita coisa pra dizer. Se você quiser que eu fale sobre alguma coisa em especial a respeito de mercado editorial e tradução, me escreva :-]


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O pessoal do Grupo Autêntica me chamou pra gravar um videozinho curto sobre tradução, e o resultado está aqui. Cinco minutinhos, vários assuntos. Fiquei com uma vontade imensa de desenvolver mais essas questões todas, e devo fazer isso em breve, em vídeo ou texto. Em breve tem um videozinho falando da Mansfield.



Publiquei lá no Umbigo das Coisas a tradução do conto "A troca", da Jhumpa Lahiri, lançado em seu livro mais recente, escrito em italiano. O conto é sobre uma tradutora -- metafórico, simples, bonito demais. 

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E coisas outras:


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Le self sélavy

Esse é o nome do livro de poemas da Mariana Lage, que edita comigo o Umbigo das Coisas. Ele está na reta final de produção, com projeto de financiamento no Benfeitoria. Mariana tem dois outros livros mais que recomendados, e o Le Self Sélavy está, sim, bonito demais. Sim, eu já li -- e você corre lá e dê sua contribuição. Faltam só três dias para o fim da campanha. E veja os vídeos com alguns poemas. Aqui tem um:




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Uma arte.

Muitos de vocês devem conhecer o poema "Uma arte", de Elizabeth Bishop. Ele é lido lindamente por Marisa Otto, que interpreta Bishop no "Flores Raras". Achei uma graça o trabalho que a quadrinista Chantal Herskovic fez com o poema, transformando-o numa curta história em quadrinhos, feita em 2012. 

E o poema, em tradução de Paulo Henriques Britto
 
Uma arte -- Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


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Quando acabar, é aí que acaba. Se você não leu, corre lá pra ver esse ensaio da Camila von Holdefer sobre a biografia do Lou Reed escrita por Victor Bockris. Ela dividiu o texto em três eixos e inseriu os trechos numa molécula de heroína. O.II é meu trecho predileto. 


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Vou deixar vocês o CHVRCHES. Uma das músicas mais legais do ano passado, e pra mim a melhor do disco, não é cantada pela Lauren, mas pelo Martin. Não encontrei nenhuma boa gravação ao vivo, então acabei eu mesmo fazendo um corte e jogando no YouTube: "High Enough to Carry You Over" junto com "Undet The Tide" no Melt Festival. E aqui só "High Enough to Carry You Over", no Firefly Festival. 

E se você quiser ler a conversa que tive com a vocalista, a fofíssima Lauren Mayberry, tá lá no Umbigo das Coisas.


Um abraço, até a próxima!