June 30, 2017

cartinha de banalidades #43

Dear Dick, opa não, péra

e aí, pessoa, tudo bem?

depois de semanas comentando meu atraso com as séries, fiquei sabendo que a Amazon Prime, tinha lançado a primeira temporada de I Love Dick, série baseada no livro da Chris Kraus.

Tinha escrito sobre o piloto em uma das primeiras cartinhas, porque a Amazon tem um sistema de produzir o primeiro episódio e promover uma votação entre os assinantes do serviço. Caso a série tenha uma resposta de acordo com as expectativas, a temporada é produzida.


O livro é de 1997 e o descobri quando foi relançado em 2015, por motivos de que título é esse? afinal Dick é um apelido para Richard, um sinônimo de pau e uma forma de dizer que alguém é babaca. Uma mulher que comete um livro com título assim merece meu respeito. Outra coisa me deixava intrigada eram as resenhas, que falavam do livro como um romance epistolar experimental. Não tive a menor dúvida de que precisava ler. 

I love Dick o livro, começa com o pé na autoficção. A autora, Chris Kraus foi casada com o professor universitário Sylvère Lotringer, que passou um tempo lecionando na Califórnia como professor convidado. É nessa ocasião em que eles saem para jantar com Dick, e em algum momento da conversa, um lance sutil, um clima, detona um tesão absurdo em Chris. Ela e o marido viviam um casamento morno, mais para uma parceria e tinham uma política de honestidade total. Chris abre o jogo e fala de sua paixão repentina com Sylvère e eles começam um jogo erótico e intelectual no qual os dois querem impressionar o Dick. Ela escreve cartas, lê para o marido, ele colabora com as cartas. No entanto, esse processo não é suficiente para lidar com o desejo, a libido, o impulso criativo de Chris.

Chris Kraus a escritora e cineasta e que mulher

Ela começa a escrever sem a colaboração do marido e o tom e o conteúdo das cartas começa a mudar. Decide enviar as cartas, depois fica desesperada querendo saber se ele leu, o que achou. É um livro incômodo porque vemos uma mulher se colocar de forma muito vulnerável para um desconhecido. Ela se abre para um diálogo com Dick, ela quer transar com ele, conversar com ele, são várias vontades intensas e simultâneas e a gente se pega pensando: não, Chris, não expõe desse jeito e no entanto, a força da narrativa, do rumo que o livro toma vem dessa postura em que, ao mesmo tempo em que ela está apaixonada e é vergonhosa, ela reflete sobre isso. Por que ela teria vergonha de gostar de alguém?

Em uma das primeiras cartas logo após Sylvère jogar a informação "minha mulher se sente atraída por você", Chris escreve para Dick sabendo estar em desvantagem porque outra pessoa nomeou seu desejo, ousou falar em seu lugar. Ela usa uma expressão pesada e forte porque cunt pode ser boceta, mas também uma pessoa estúpida [com a qual, infelizmente, podemos ter sido associadas em algum momento da vida]:

the Dumb Cunt, a factory of emotions evoked by all men.
So the only thing that I can do is tell the Dumb Cunt Tale. But how?

As cartas avançam, Dick não quer assunto, o casamento de Chris entra em colapso e conforme ela se vê longe dos dois suas, a escrita se transforma em pretextos para repassar suas experiências afetivas, suas questões como cineasta, com o processo de seus filmes, vemos suas dúvidas e incômodos emergirem. As cartas viram um exercício, um pretexto e ela começa a divagar sobre o cenário da arte em NY numa determinada época, reflexões sobre as obras de R.B Kitaj e Hannah Wilke.

R. B. Kitaj

I love Dick traz muitas referências, porque as cartas acabam se tornando híbridas com ensaios. No entanto, há um percurso de observar como Chris sai daquela posição da mulher patética e rejeitada - e pensando bem, de onde a gente tira essa ideia de que uma mulher desejante é boba, dá pena? (oi, patriarcado, ridicularizando o desejo feminino para mantê-lo privado, silencioso, fingindo que ele não existe) É como se víssemos ela se tornar uma autora ao longo do livro. Ela se afasta do marido coautor, do ambiente universitário e suas estruturas de pensamento e escrita e mantém apenas o seu destinatário como a última bengala. Vai ficando cada vez mais claro que não sabemos nada sobre Dick, que ele é uma projeção, uma figura, ele serviu para despertar toda uma potência, que, na verdade, era da Chris o tempo todo.

Hannah Wilke

Bom, aí quando anunciaram a série, pensei: como adaptar um livro que não se enquadra nem num gênero literário? Mas uma das criadoras é a Jill Soloway e o pouco que vi dela me pareceu muito interessante, a outra é Sarah Gubbins, vamos ficar de olho no que essa mulher vai fazer daqui pra frente. Há várias mudanças na narrativa. Da Califórnia para Marfa, no Texas, um ambiente nada glamouroso, um vibe trailers, deserto, fim de mundo empoeirado. Dick não é apenas um acadêmico, mas um artista e um dos curadores de um instituto de arte contemporânea. E ele é um cowboy. Ele é o homem Marlboro. É aquele símbolo da masculinidade: silencioso, fechado, solitário. Um espelho prontinho para uma mulher projetar profundidade e mistério. Aliás a arte dele também é assim: linhas retas, color blocks, estruturas de concreto, perfeito para enxergarem toda uma genialidade.



Outras personagens surgem, tirando o foco da questões de Chris. Os primeiros episódios são centrados no suposto triangulo, no jogo erótico, mas ao longo da série Devon, que trabalha como faz tudo no instituto enquanto escreve uma peça, Toby uma bolsista de pós graduação e Paula, a curadora e organizadora do programa de artes ganham espaço e dão margem para que o desejo feminino, a criatividade e as relações das mulheres com a arte ganhem mais densidade e outros desdobramentos.

Há soluções visuais maravilhosas, como a cena do jantar, em que o movimento de câmera serve para complementar a dinâmica de uma conversa entre homens na qual Chris, como a esposa do intelectual, não é levada a sério. Ou Dick desaparecendo em um tanque d' água, elemento associado às emoções, ao início da vida, 70% do nosso corpo é formado por e uma mulher excitada está molhada. Entretanto quando Chris sem banha no mesmo tanque, ele ganha um sentido uterino. Ela pensa no próprio útero, mas sai daquela água renascida. Outra cena muito simbólica é quando Chris diz a Dick que um linha reta é tediosa e no rancho ele se depara com uma serpente sinuosa. Uma mulher, uma serpente, um homem. Onde mesmo a gente viu essa história? 

Se o livro nos oferece apenas o ponto de vista da autora, a série dá mais dimensões aos personagens. O orgulho de Sylvère, sua fragilidade, o medo de ficar sozinho, a percepção de que está envelhecendo. Dick verbaliza seu incômodo com a posição de muso, se sente invadido, exposto. De certa forma, sua insistência em rejeitar Chris, diminuir o que ela cria, reafirmar sua falta de interesse, parece uma punição por ela ter revelado a ele suas fantasias.

o desejo e o medo

Kathryn Hahn traz essa mistura de caos, desejo, fúria e vulnerabilidade. Sentimos vergonha alheia pela Chris, sentimos que ela está se comportando como uma adolescente. Ou pior, lembramos de algum momento em que agimos como ela. Devon é a primeira pessoa a olhar Chris e enxergar sua crise além da situação "uma mulher casada se apaixonou por um cara". Ela é também a primeira pessoa a ser impactada criativamente pela exposição das cartas. [De certa, quem não é afetado de forma sentimental é criativamente, Dick é nos dois sentidos].

Inicialmente Devon pensa em se apropriar do texto de Chris para sua peça [e os trechos lidos na série são o livro]  mas essa é apenas uma faísca que a leva a pensar no que  realmente gostaria de fazer. Toby também se sente instigada e acaba inventando uma performance constrangedora. [mulheres inspiradas pela coragem de outras mulheres, oi, alguém?]

Para além de mulheres e suas relações com a arte - o que querem abordar, estudar - há provocações sobre o papel da arte como algo que move as pessoas, sobre o privilégios educacionais [quando uma personagem faz uma coisa, mas outra sem grana nem prestígio é responsabilizada], privilégios estéticos/hétero quando Devon conta as histórias de mulheres que se envolvem com ela, mas não admitem um relacionamento. Tem também privilégio de classe, quando Toby não entende como sua performance não é efetiva em meio aos trabalhadores de Marfa. Enquanto o trabalho artístico de Toby gera mídia, viraliza, o de Devon provoca sorrisos, catarses. Não é apenas sobre produzir arte, mas qual arte? Com quem ela dialoga?

Devon a female monster

São apenas oito episódios de meia hora, mas há muitas referências de cinema, pintura, fotografia. Eu achei: Maya Deren, Louise Bourgeois, Kara Walker, Laura Aguilar, Mickalene Thomas, Kerry James Marshall, Eva Hesse e Zoe Buckman mas outras coisas escaparam, com certeza. Acho maravilhoso que uma série que se pode maratonar em uma tarde nos apresente artistas contemporâneos desconhecidos traga várias coisas para pensarmos a respeito.

Kerry James Marshal só pinta pessoas negras <3

Para encerrar, devo dizer que I love Dick é uma série que nos deixa ambivalentes. Os personagens são contraditórios. Há citações de video arte em alguns episódios. Há uma objetificação proposital do Kevin Bacon porque a direção usa vários recursos para mostrá-lo como um cara sexy, até o momento em que a gente se liga: opa, isso é construído. É algo que vale a pena ser visto porque é muito provocador. Você terá momentos incômodos, mas o percurso vale e muito.

Terminei a temporada e perturbei as amigas para assistirem porque já me bastava ter lido esse livro sozinha [beijos, migas!]. Quando cheguei ao final da leitura de I love Dick, tive a sensação de que teria que voltar, com calma e tempo, mais maturidade, para absorver as provocações que a Kraus propõe. Ao final da série, me senti pilhada, pensando, nossa, o lance é continuar escrevendo, lendo, pesquisando e dividindo com as pessoas porque é assim que a energia se move. Uma pessoa te inspira, você troca com alguém, outro te mostra algo novo, a gente partilha as inquietações com as amigas e produz. Porque o lance é continuar viva e questionando. Eis mais um trechinho:
If women have failed to make “universal” art because we’re trapped within the “personal,” why not universalize the “personal” and make it the subject of our art?

Se você assistiu e quer conversar, me responde. Se você viu alguma série diferente e acha que vou gostar me fala. Não esqueci de Handmaids Tale nem de American Gods, não perca a fé. Vou tentar voltar em breve com umas dicas de leituras legais.

beijos e até a próxima,
Stephie

ou ainda:
Love,
Chris