November 11, 2016

#7 - Formas de contato

 
 

 

Quando o A Amiga Genial foi lançado no Brasil eu trabalhava em uma livraria e por conta de uma estratégia de marketing idiota, peguei um certo bode com o livro.

Então, cheguei atrasada. Foi só em agosto deste ano que finalmente entendi a Febre Ferrante.

 

Durante a olimpíada, eu e minha mãe tivemos ao mesmo tempo um breve recesso. Ela queria algo para ler nessas horas livres, conheço minha mãe para saber que precisa de narrativas envolventes, porque qualquer possibilidade de dispersão é suficiente para que ela, inquieta, se volte para outra ocupação.

 

Minhas amigas, especialmente Becky e Brena, falavam em algum chat sobre como devoravam qualquer lançamento de Ferrante. Então, recomendei o que na época era último lançamento, Dias de Abandono. Ela mergulhou no livro em um final de semana. Logo depois, foi minha vez, enquanto ela já partia para o Amiga Genial. Agora nós duas já terminamos A filha perdida e saímos dessa história um pouco tontas, desconfortáveis, sentindo a febre como uma experiência física. Estou na metade de Amiga genial desesperada com a ideia de que um dia termine de ler tudo que já foi escrito por essa mulher e não saiba mais o que fazer com minhas madrugadas aflitivas. Hoje vou comprar o segundo volume da tetralogia napolitana, à pedido de minha mãe.

 

Desde que começamos, queremos mais. Compartilhar essa experiência com ela tem sido uma pequena dádiva. Eu e minha mãe somos daquelas que tentaram ser amigas, ainda que ela lembrasse que antes disso é minha mãe. Por muitos anos, em dinâmicas conflituosas, conseguimos. Depois de uma época, foram tantas as coisas que vivi longe dos seus olhos que sentia que essa mulher não conhece quem me tornei. Essa sensação permaneceu até que eu entendesse que tampouco a conheço inteiramente.

 

Consentir ao desconhecido que ronda qualquer relação é algo que me atordoa. No entanto, com minha mãe, cada vez mais funciona como um jogo íntimo. Especular - ou simplesmente inventar - quem foi e quem é  transforma o modo como encaro essa relação, porque, aos poucos, me livra das expectativas que depositamos nos pronomes possessivos e nas figuras de afeto - o que é inevitavelmente uma autoridade.

 

 


Minha resenha sobre A filha Perdida que foi publicada essa semana na TRENDR
 

Compilação de artigos sobre Elena Ferrante publicada na Mulheres que Escrevem
 


 

 

Isso me faz repensar a ideia da literatura como algo solitário.

Sim, talvez, a literatura seja uma prática que geralmente envolve pessoas mais propensas à introspecção. No entanto, se debruçar sobre esses objetos é uma aposta de contato.

Os livros são uma forma específica de estar junto, de participar de uma realidade compartilhada, através de uma língua, de todas as mãos que se envolvem em um livro - desde o trabalho de quem escreve até a pessoa que te vende ou empresta um livro.

A leitura não é uma fuga, é um modo para atravessar essa realidade.

 

É por isso que emprestamos livros, que enviamos citações por mensagens, que levamos nossos alvos de afeto até as livrarias como um passeio entre possibilidades compartilhadas. E quando alguém desgosta de um livro que amamos nos ressentimos, pois há um pedaço de nós, uma experiência possível, que se mostra indisponível aquela pessoa. O contrário disso é uma ponte, um caminho compartilhado. É claro que, diante do horror que se repete diariamente nesse mundo, a literatura é inútil. Suas transformações são insuficientes em muitos momentos. Contudo, mesmo aí, ela pode ser uma âncora, algo que ainda nos mantém aqui, em contato.


Em meio à crise, abrir um livro e se dedicar a cada página é um gesto de sobrevivência.


 


 

Alguns textos:

O alívio de sentir, por Amanda Tracera

O idioma dos buracos negros, por Maíra Ferreira

A recusa da beleza, por Bárbara Carneiro

“Leaning in” to unemployment, like a boss, por Jillian Lucas

 

 


 

 

Querida agradecer as respostas queridas da última cartinha <33 Tô devendo um e-mails aí, mas é porque essa semana foi bem doida - o que também explica essa cartinha mais curta chegando quase de madrugada. Em uma semana planejei não só uma viagem como também a produção de um evento - enquanto produzia mais um no trabalho. A boa notícia é que vai ter encontro da Mulheres que escrevem em São Paulo! Estou me cagando de medo porque mediar um encontro com tantas mulheres maravilhosas é uma baita responsabilidade, mas também estou muito feliz e ansiosa. Se você for de São Paulo, chega lá na Tapera Taperá na segunda dia 14 às 19 horas:)

 

Para mais informações tem evento: https://www.facebook.com/events/1805211099762476/

 

 

 

 

Beijos e até daqui a quinze dias,
porque decidi que essa coisa de newsletter semanal tá puxada demais pra mim
Taís