March 03, 2017

Velocidade de Escape #18 - Deixe a chuva cair


I
 
But I'll know my song well before I start singing
 
 
A Hard Rain's A-Gonna Fall é uma faixa de The Freewheelin' Bob Dylan (1963). Nas notas que acompanham o encarte do disco, Bob Dylan a descreve como "uma canção do tipo desesperada. Todos os versos são, na verdade, inícios completos de outras músicas. No entanto, quando eu a escrevi, pensei que não viveria o suficiente para compor tanto assim, então pus tanto quanto pude nela". 
 
A música toma emprestada o andamento e a estrutura dialógica de uma tradicional balada escocesa chamada Lord Randall (você pode ouvir uma versão aqui). Nela, uma mãe questiona a ausência do filho, um jovem e belo cavaleiro - o tal Lord Randall do título - e, aos poucos, descobre que o rapaz passou o dia na floresta, onde foi envenenado pela amante, e agora está morrendo.
 
Bob Dylan emprega, em sua versão, questionamentos semelhantes ao da mãe de Lord Randall para mover a narrativa. Na primeira estrofe, os versos perguntam: "Onde você esteve, meu filho de olhos azuis? Onde você esteve, jovem querido?" A voz que responde usa verbos de movimento para indicar que passou por um sem número de paisagens diferentes, deixando a impressão de que viajou por todo o mundo - ou, pelo menos, por uma versão mitificada do mundo. Ele tropeçou ao pé de doze montanhas enevoadas, engatinhou em seis estradas tortuosas, pisou no centro de sete florestas tristes, e assim por diante.
 
Na estrofe seguinte a pergunta é "O que você viu, meu filho de olhos azuis? O que você viu, meu jovem querido?" As respostas são imagens violentas: um bebê recém-nascido rodeado por lobos, um quarto cheio de homens com martelos sangrentos, dez mil oradores com línguas dilaceradas, armas e espadas afiadas nas mãos de crianças pequenas. E na próxima estrofe, a pergunta é sobre o que ele ouviu. Os sons descritos são assustadores, oscilando entre lembretes do quão terrível pode se tornar o mundo natural e o ruído intermitente das angústias humanas: o estrondo do trovão como um aviso, o ronco de uma onda que poderia afogar todo o mundo, mil bateristas cujas mãos estavam em brasa, dez mil sussurrando sem que ninguém estivesse ouvindo.
 
A quarta estrofe começa perguntando sobre os tipos de pessoa que o viajante encontrou pelo caminho. É claro que, após cenários tão lúgubres, as pessoas não estão muito felizes: uma criança ao lado de um pônei morto, uma mulher com o corpo em chamas. Mas nem tudo está perdido, há também uma menina que deu a ele um arco-íris, se é que isso significa alguma coisa entre a imagem de dois homens, ambos feridos - um pelo ódio, outro pelo amor.
 
Após o relato, há ainda uma última pergunta a ser formulada, e é uma pergunta que não admite a inércia diante do estado terrível em que o mundo se encontra: "E o que você vai fazer agora, meu filho de olhos azuis? O que você fará agora, meu jovem querido?" A resposta não decepciona: o jovem querido, o filho de olhos azuis de uma mãe ou pai que não admite qualquer conformismo diz que voltará lá para fora, antes que a chuva comece a cair. E então entrará na floresta mais escura e encontrará as pessoas que estão de mãos vazias, no lugar onde as cápsulas de veneno estão afogando as águas, onde a fome é terrível e as almas são esquecidas. E então fará o que estiver a seu alcance para que todos vejam o que ele viu - a esta altura já deveríamos ter presumido que nosso viajante é, afinal, um bardo, e sua forma de ação é através de música e letra.
 
Entre as estrofes, o refrão é uma voz incessante, que não sabemos a quem pertence  - e pode ser que não pertença a nenhum dos personagens do diálogo -, indicando que uma chuva forte está para cair.  É possível entender a chuva como ameaça - a associação com o dilúvio bíblico faz até certo sentido - mas também é possível ler (e esta é uma leitura que me agrada mais, porque escapa da lógica punitivista) a chuva como um grande acontecimento, nem bom nem ruim, mas inevitável, e que vai alterar a ordem das coisas.
 
A Hard Rain's A-Gonna Fall foi associada, à época, como uma música sobre as tensões da Guerra Fria, uma expressão do medo coletivo diante da possibilidade de um inferno nuclear. É uma interpretação interessante, mesmo porque dá outro nível de complexidade ao intertexto, transformando o envenenamento de Lorde Randall pela amante em uma dinâmica complexa entre os cidadãos e os interesses dos governos. No entanto, o próprio Dylan já disse em entrevistas que esta é uma interpretação reducionista, e que a música, inclusive, foi composta meses antes da escalada bélica entre EUA e União Soviética que desembocaria na Crise dos Mísseis. Mas isso é o que menos importa.
 
A música é belíssima.


 
II
And I'll tell it and think it and speak it and breath it
And  reflect it from the mountain so all the souls can see
 
Patti Smith foi convidada para cantar na cerimônia de premiação do Nobel ano passado, antes mesmo dos anúncios dos vencedores. Ela aceitou, e havia escolhido uma música própria para tocar na cerimônia. Mas é claro que tudo mudou quando soube quem foi laureado na categoria Literatura. Apresentar uma música própria já não parecia adequado, não quando o comitê do Nobel havia reconhecido qualidades literárias na obra de um letrista, grande influência artística e amigo pessoal da cantora.
 
Patti optou então por apresentar uma versão de A Hard Rain's Gonna Fall, explicando em uma declaração que ela considera a canção "(...) uma das mais belas. Ela combina um domínio rimbaudiano da linguagem com a profunda compreensão das causas do sofrimento e, em última instância, da resiliência humana. Eu o tenho seguido desde que era adolescente, há meio século, para ser exata. Sua influência foi ampla e tenho uma grande dívida com ele. Eu não havia previsto cantar uma canção de Bob Dylan em 10 de dezembro, mas estou muito orgulhosa de fazê-lo, e abordarei a tarefa com gratidão por tê-lo como nosso distante - mas ainda assim presente - pastor cultural."
 
No dia da cerimônia, Patti errou a letra e perdeu o andamento da música. Diante dos reis da Suécia, de um teatro povoado por algumas das mentes mais brilhantes de sei lá quantos campos de conhecimento humano e das câmeras que registravam a cerimônia, que depois seria disponibilizada para o resto do mundo. Lá estava ela: um dos ícones de sua geração, poeta vigorosa, uma mulher cultíssima e despachada, praticamente uma das mães do punk: profundamente comovida e vulnerável diante da empreitada.  (Assista o vídeo) "Poderíamos começar de novo? Eu peço desculpas - eu estou tão nervosa". Um aplauso percorreu a plateia: a voz retornou forte, mas a letra, tão elaborada, escapou uma e outra vez da memória. Ela aceitou os deslizes seguintes sem interromper a banda: era preciso terminar a canção.
 
Dias depois apareceu na New Yorker um ensaio assinado por ela, entitulado How it feels. Nós, espectadores, tivemos então acesso aos bastidores da apresentação, desde o convite do comitê sueco à confluência de fatores e emoções que a levaram a errar a música que havia ensaiado tantas vezes, e que era uma de suas preferidas desde a juventude. Se o vídeo já havia me levado sem dificuldade às lágrimas, o ensaio não apenas repetiu a emoção, mas tratou de amplificá-la. Patti usou a noite da apresentação e a música de Bob Dylan como fio condutor da própria trajetória: setenta anos de vida, completados recentemente em dezembro, e comemorados no palco do Riviera Theatre, em Chicago, sua cidade natal.   
 
A letra de A Hard Rain's A-Gonna Fall estava impregnada das memórias de Patti Smith: cantar essa música significava lembrar-se da mãe, que foi a primeira pessoa a comprar um álbum de Dylan para ela; do marido, há muito falecido, que adorava a canção; do início da própria carreira,  os passos incertos da juventude; do próprio filho de olhos azuis que ela gerou.  Certas obras de arte nos acompanham ao longo do tempo: atribuímos sentidos diversos a elas e gosto de pensar que elas também nos ressignificam. Como esperar leveza e destacamento quando algo é grande ou importante demais? Errar, nesse caso, também é uma homenagem - uma reverência à importância das palavras que ela tomou para si há tantos anos. Diz Patti Smith: "me ocorreu que a narrativa começa com as palavras "tropecei ao pé de doze montanhas enevoadas" e termina com o verso "Mas eu vou saber minha canção de cor muito antes de começar a cantar". Eu senti a humilhante ferroada do fracasso, mas também tive a estranha percepção de que de alguma forma eu havia entrado e realmente vivido o mundo da letra."
 
 
 
 
III
 
And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard
It's a hard rain's a-gonna fall
 
No final do ano passado, a apresentação (e o ensaio posterior) de Patti Smith me encontraram em um momento sensível da vida. Quinze dias antes eu havia prestado um concurso para professora efetiva em uma universidade pública. Foi minha primeira experiência - eu havia passado para um concurso de substituta até então, que é estressante, mas não tão terrível - e sabia que não podia esperar muito: não tive tempo para me preparar e tinha certeza que minha ansiedade ia trabalhar contra mim. Meus únicos objetivos eram ganhar experiência e não passar vergonha. Eram objetivos razoáveis, eu pensei, estou mantendo os pés firmes no chão, vai dar tudo certo. Eu estava enganada.
 
Fui aprovada na prova escrita, mas tive problemas com a prova de aula: por ter sido sorteado um ponto que eu não dominava, virei a noite preparando material. No fim das contas pequei pelo excesso, pelo nervosismo, pelo amadorismo: tinha quinze páginas escritas para resumir em 50 minutos. Fiquei nervosa, fiz pouco sentido, cortei minha apresentação antes da hora, não consegui consertar. Pedi desculpas, fiquei vermelha e saí de sala humilhada.
 
Tremendo, fui me esconder em um canto para chorar. Quando comecei no emprego tinha lá minhas dúvidas se ia dar certo, mas descobri uma verdadeira paixão pela coisa. Hoje me considero - sem falsa ou verdadeira modéstia, a modéstia é conceito terrível do qual precisamos nos livrar - uma boa professora. Tenho turmas grandes: sei lidar com deslizes, esquecimentos e outros percalços. O que a banca examinadora viu não correspondia sequer à minha performance profissional em dias ruins. Mas a banca examinadora, descobri logo, importava muito pouco: eles não me conheciam, dane-se o que estavam pensando sobre mim. Aliás, dane-se toda a sisudez do processo, que transforma o que deveria ser um desafio intelectual em uma maratona emocional. Eu me conhecia. Eu era o problema. Eu não consegui cumprir o mínimo que exigi de mim. Eu não apenas me reprovei em uma potencial vaga de emprego: eu me envergonhei.
 
Fiz o que sempre faço em situações de dor: lambi as feridas sozinha. Avisei para todo mundo o que havia acontecido, que eu estava bem (não estava) e desliguei o celular. Sabia que minha mãe ia tentar me convencer a voltar para casa. Sabia que meus amigos estavam preocupados e começariam a me ligar. Sabia que ninguém estava pensando menos de mim pelos meus erros, e que gente que me amava estava disposta a me ouvir e me consolar. Mas eu não queria ser consolada, eu não queria aceitação. Eu precisava de espaço para reviver minha humilhação por todos os ângulos possíveis; fosse para me punir, fosse para me dessensibilizar. Aproveitei que meu namorado estava viajando, embarquei em um ônibus interestadual e consegui uns dias de eremita, sozinha com meus gatos.  
 
Passada a ressaca emocional - afinal de contas eu precisava voltar ao trabalho - as coisas foram, aos poucos, voltando à rotina. Eu tinha aulas para preparar, trabalhos e provas para corrigir e as exigências da época das festas, que já se avizinhavam. Quando o pior cenário possível (aquele que você delineia com precisão ultrarrealista às três da manhã, enquanto rola na cama sem conseguir dormir) vira realidade e você vive para contar a história no dia seguinte... ela passa por você (ou você passa por ela). A gente precisa elaborar, criar uma narrativa e seguir em frente, e foi o que eu fiz. Já estava me sentindo melhor quando assisti o vídeo da Patti, e depois quando li o ensaio. Chorei tudo de novo.  (Não é tão terrível quanto parece: choro com muita facilidade.)
 
Eu estava diante da narrativa de uma das artistas que mais admiro, que tenho como um dos meus principais modelos criativos, e ela foi capaz de elaborar os próprios erros de uma maneira tão construtiva e com uma humildade tão intensa que achei que fosse me afogar. O episódio todo foi muito catártico: para além de todas as dívidas criativas que tenho com Patti Smith, agora também devo a ela um quinhão da minha saúde mental. Aquela história de como certas obras nos acompanham: Patti Smith teve o Dylan. Eu tive a Patti Smith. E consegui finalmente escrever a respeito - e me pareceu tão simples agora quanto me era impossível no final do ano passado. "Mas eu vou saber minha canção de cor muito antes de começar a cantar", é o que me ocorre, à guisa de conclusão. E ainda: eu fiz o que dava para fazer. E depois deixei a chuva cair. 

Não se esqueçam de deixar a chuva cair. (Não é como se fosse possível evitar, de todo jeito).
 
Um beijo,
 
Gabriela.